Promenade

Parece que algumas aves migram na Primavera, e eu também não sou de ficar muito tempo parada. A menos que que me dê para alentejar (e dá-me cada vez mais), debaixo de um chaparro, ou de uma tília, daquela tília, se tiver acordado chique.

Daí esta estranheza toda de ter começado este blogue há 12 anos (!), na mesma altura em que comecei a meditar, e alguns meses depois do meu querido S. nascer, e ainda aqui andar.

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Snack Reads

Ando a escrever várias coisas e há uns dias numa entrevista disseram-me: “O mais importante é aquilo que podemos não estar a ver”. A entrevista não tinha, em princípio, nada de filosófico, e talvez por isso mesmo aquilo bateu-me.

O que julgamos que sabemos. Aquilo que para nós é claro. Isso é fácil. O problema (e o mais importante, talvez) é aquilo que podemos não estar a ver. 

Hoje quando o algoritmo me presenteou com a notícia (!) sobre a aliança improvável entre a Fnac e o Uber Eats, só não esfreguei os olhos porque já sei que não se faz. Em algumas coisas fico calada e sou obediente.

Mas pisquei-os várias vezes, isso sim.

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Nina

Nina corta as ondas suave, numa solenidade estranha, feita de soltura e ritmo. Os dias no mar são longos e leves, longos e leves. O tempo tem mais tempo e não é preciso fazê-lo render, basta aprender a navegá-lo. Há seis dias que não vê terra, e poderia ter outros seis pela frente, e mais seis, e seis vezes seis trinta e seis, e Joan continuaria naquele sossego doce, a vida tranquila.

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Palpite

Senhor Jaime tem uma vida tranquila.

Ele acorda sempre à mesma hora, faz sempre o mesmo café. No seu passo indeciso, desajeitado, repete a promenade matinal nos 10 metros quadrados de cozinha: do armário onde guarda a lata, ao escorredor onde repousa, de boca para baixo, a desmembrada cafeteira italiana, como um tubarão de prata.

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Chet Baker num clube em Paris viaja para trás

"Se não enfrentaste a madrugada |
com os olhos cheios de sono|
é porque não sabes o que é o amor"

cantou-me Chet ao ouvido
todo mel
caindo 
na sopa

e eu, naturalmente, acreditei.

Sentada à janela,
que se abria sobre o campo
que se abria sobre a claridade
eu ouvi muitas madrugadas.

Às vezes, no meio da bruma
das manhãs cinzentas, esverdeadas,
parecia-me ver ao longe a torre eiffel

como se fosse um mastro e eu um barco, 
eu a vigia e ela o vulcão
espetado
na minha ilha 
privada

naturalmente, era uma ilusão óptica
que acompanhava a minha ilusão óptima 
e assim sem esfregar os olhos
eu seguia
no banco de trás do autocarro,
até à próxima miragem.

(na fotografia, Chet e Halima, numa imagem querida que me acompanhou durante toda a juventude, e bem depois)

ABRAÇA A TUA MENINA, VAI

Vem daí vamos dançar. Assume o teu olhar desafiante, descabelado, inventa tudo o que possa ser inventado. Cagando para as os pratos empilhados, a loiça suja, limpa, suja outra vez. Esqueci o pó dos móveis e sacudi tudo, parti a loiça toda sim, reinventei-me.

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Despensa

Uma pessoa acorda com uma frase na cabeça e deita-se com outra, o que para alguns seria uma grandessíssima promiscuidade.

Uma pessoa pode até não acreditar no poliamor e abrir uma excepção para os livros, que devem ser muitos, múltiplos e variados.

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Chá das Cinco (Cerimónia)

Vestido preto, pele branca. Alto e pára o baile e todo o salão emudece preso naquela saia rodada, rodada, rodopiando como um pião metálico enrolado numa faixa de cetim.

O chão brilha, o tecto rompe fácil o firmamento, o lustre cambaleia como se estivesse pendurado num navio apanhado numa súbita tempestade.

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Memórias de África

(eu não tenho)

Em África, os dias começam mais cedo e assim muitas vezes às dez da manhã aquela miúda já tinha papado três pequenos-almoços completos, insulares e à inglesa, um em sua casa, outro em casa da avó, outro em casa dos tios, e assim, contente e de barriga cheia se encaminhava para casa dos padrinhos, umas ruas mais acima, onde a família em questão estava reunida à mesa ricamente disposta,

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