breathless, branded and bewildered

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Um dia conheci um digital manager que mandava tanto que lhe chamávamos digital master, e ele percebia mesmo daquilo, posts, e influéncers e #hashtags, e melhores horas para postar, e microblogging e cross posting, e colabs, e todos os meandros da #vidavirtual.

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Noctambule

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Nunca soube bem como se pronuncia “Grcic”, na minha boca cada dia é uma pronúncia diferente, mesmo depois de ter entrevistado o grande Konstantin, há vários anos, há várias vidas, fiquei na mesma. Em vez de lhe perguntar o que achava sobre o excesso de objectos desenhados num mundo cheio de mais (e ainda não se falava de crise climática) devia ter-lhe disparado, “Konstantin, como se pronuncia o teu nome?”.

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De passagem

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Diz Don Galeano que recordar vem do latim “re-cordis”, voltar a passar pelo coração. O livro, chamado “Dos Abraços” , está cheio de coisas bonitas e significantes, fantasias e realidades, histórias que gostaríamos nos tivessem acontecido ou então que nos tivessem contado, que más da, outras não tanto, de duras e abjectas e inacreditáveis, mas em todas é tão fácil rever-se.

Estou a ler e é como se lesse uma vida minha que não vivi. Estou a ler e a cada página estou colada, as palavras são calquitos, passo o lápis sobre o papel vegetal e fica lá o rasto, o risco, a memória, e do outro lado, nítida, a imagem de uma experiência que não sendo minha, sou eu inteira. Não há como explicar este processo, só que entre estes abraços repousa a mente, e atrás o corpo, e isso é bom.

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A Rolha da Garrafa do Rei da Rússia

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Uma Madalena foi à ópera e um casal muito simpático perguntou: “Então já não escreve sobre design?”.

“Tem dias”, respondeu.

Hoje é um desses dias. Porque antes que o ano acabe é importante lembrar as coisas boas que o marcaram, e o trabalho do colectivo de designers francês Collections Typologie é um óptimo exemplo.

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O Jogo das Cadeiras (sisterhood)

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Num dia de Outubro vou à capital fazer uma entrevista. As entrevistas não são todas iguais, e acontece o entrevistador passar a entrevistado sem saber nem como  nem porquê. São as melhores.

Estou no centro de Lisboa, devidamente atrasada, chego a uma porta, subo umas escadas, não reparo se têm corrimão mas desconfio que não, são as melhores. Lá em cima a porta está aberta, pelas janelas inclinadas entra a luz cinzenta, coada pelas nuvens esparsas do dia que voa lá fora. É um lugar despido e forte. Uma sala vazia, chão de madeira, traves descascadas a suportar um tecto distante quanto baste.

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Tati na Taschen

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Ontem teria feito 112 anos, querido Tatischeff. Tinha o Sol em Libra tout comme moi, e é possível que isso explique alguma coisa.

Este blogue chama-se Playtime for a reason. Ver Tati num cinema ao ar livre, debaixo do quarto crescente numa praça Alentejana, rodeada de velhinhos à risota e de crianças indisciplinadas foi um dos meus Jour de Fête do ano.

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Coup de Bey

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Beirute estalou no ano em que eu nasci e começou a sossegar no ano em que a minha mãe levava a minha irmã na barriga. Talvez isso explique a ligação umbilical que senti assim que pus um pé na cidade. Talvez não passe de uma coincidência forçada, engendrada para explicar o inexplicável, um amor rompante, sem aviso,  coup de foudre, coup de Bey.  É possível que para compreender uma cidade desconhecida seja preciso comê-la, mastigá-la, digeri-la nos sucos da nossa própria biografia, e assim, mesmo num plano fictício, torná-la nossa, autobiográfica.

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Nature Vive

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Olhei para estas peças de cerâmica da italiana Paola Paronetto e pensei nos quadros do Giorgio Morandi, que descobri em Paris,  não sei bem quando mas antes dos 20 certamente, pela mão do meu padrasto seguramente, quando a vida me parecia vibrante e tremenda e de uma beleza incerta e doce, exactamente como os quadros de Morandi.

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Portugal dos Pequenitos

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Aviso já que não gosto particularmente da palavra “meritocracia”. Facilmente lhe desliza o pé para o chinelo, enfim, não era minha intenção arrancar logo a matar, queria até controlar qualquer pendor elitista neste texto, mas não encontro melhor recurso expressivo (parece que é assim que se diz agora) e uma mulher não é de ferro, e um chinelo é um chinelo, neste caso poderosa sinédoque ou metonímia, já me baralhei, acho que tenho de ir ao Camões, o lírico e o outro, mas é assim, uma mulher espeta-se logo na primeira frase, porque uma mulher precisa de dizer o que pensa, como pensa.

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Ai Chico

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Na minha cabeça Chico Buarque era um músico brasileiro que tinha nascido na Holanda por acaso. Não percebia porque é que ele havia de ter nascido logo ali, num país distante e chuvoso e sombrio, se ainda por cima o seu cavalo só falava inglês.

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