Os Curaçãs do Careca

Não era preciso ter aparecido nos Wallpaper City Guides para ser uma instituição. Para mim, o Careca sempre foi o Careca, a pastelaria para onde corria todo o santo dia depois da escola, os sapatos cheios de areia, para lanchar um Compal (daqueles que vinham numa latinha) e um bolo (geralmente um Queque, ou um Palmier. Bem namorava as Pirâmides de Chocolate – que não são pirâmides, são cones, como os meninos do Fabrico Próprio muito bem nos lembraram- mas não havia maneira de convencer o meu pai. Ele dizia que eram feitas com “restos de bolos”  e eu ficava a olhar, nariz colado na vitrine, e a cereja no topo a brilhar, a brilhar).

O Careca que deu nome à Pastelaria Restelo era uma figura antipática, taciturna, quase maléfica, mas resistente: empenhada em esticar sobre a cabeça os quatro luzidios fios de cabelo que lhe restavam. Deve ter sido das primeiras imagens do “facho” consumado que cravei na memória.

Mas os bolos, ah os bolos… Não me lembro dos croissants. Lembro-me que ia lá porque me levavam, porque  era óbvio, natural, porque não havia mesmo outro sítio para ir (também não precisávamos de alternativas), a não ser o Chile, um bocadinho mais abaixo, mas isso era para os gelados.

Enfim, entretanto o Careca morreu e a pastelaria rejuvenesceu. Agora é o Sr. Ricardo (que os Wannabes tratam, num misto de condescendência e falsa intimidade, por “Ricardo”) que está ao leme da Caravela despenteada. Que bom. Modernizou-se (há um sistema de cartõezinhos que se consegue fintar) e tornou-se ainda mais cool. Os croissants, os mini Palmiers, e os Palmiers continuam lá todos. Só que agora não é só “a malta do Restelo” que se delicia com as suas texturas e sabores.

Ou se calhar até é, só que ” a malta do Restelo” já não é o que era. Se calhar, os croissants passaram a chamar-se curaçãs…

Devia estar contente com o sucesso do Careca, mas não estou. Este post cheira a saudosismo e a bafio, mas teve que ser. Porque no sábado, lá fui ao Careca, acompanhada da prole, G. e S. rejubilando no “chitex” dos croissants a sair. Trouxemos quatro. Claro que tudo tem um preço, e não consegui proteger as crias de um encontro imediato com um indesejado Wannabe, daqueles a quem tive mesmo de falar, mesmo sentindo-me execrável, feudalista, fascista, por pensar “mas o que é  TU estás a fazer aqui?”. Felizmente, teremos sempre os croissants.

(na imagem, um genuíno croissant do Careca, sacado da página de facebook da instituição.)

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2 responses to Os Curaçãs do Careca

  1. susana coelho

    Há falta de espaço…para as pessoas e para os outros, que pensam ser melhores que as pessoas; no fim todos comem o mesmo croissants.
    Afinal na essência são todos semelhantes…só muda as parvoices e manias.

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