Quem semeia ventos

Chegou o Inverno (parece que fizemos skip intro e passámos ao lado do Outono) e resolvemos deshibernar.
Tenho alguns temas em carteira (ou no frigorífico) mas começo pelos mais recentes: por exemplo, a exposição A Perspectiva das Coisas: A Natureza-Morta na Europa nos séculos XIX e XX que inaugurou esta semana na Gulbenkian. Lá fomos ontem, en famille, aproveitando os últimos raios de sol deste estio prolongado que, olhando lá para fora, diria que acabou.
Em teoria, era uma exposição “fácil” para os miúdos, já que poderiam identificar, facilmente, maçãs e jarros e flores e garrafas, e, sim, cachimbos, irremediavelmente quietos e no entanto cheios de vida (para recuperar a expressão inglesa, que gosto mais do que a tétrica “natureza morta” ou a apirosada “bodegón”). E daí, partir para a loucura: os estilhaços, a deconstrução, o surrealismo, a abstracção. Não em vão, lembrava Morandi, citado algures no percurso: “Não existe nada mais surreal, nada mais abstracto, do que a realidade”.
Sempre fui partidária de levar as crianças a museus e galerias, mas admito que às vezes me arrependo. (“They’re never too young to go to museums” incitava Sir John Sorrell, criador do London Design Festival, pai da Sorrell Foundation e embaixador das indústrias criativas britânicas que tive o prazer de entrevistar há umas semanas)
Ontem, na Gulbenkian, foi uma dessas vezes. G. estava demoníaco, a aproximar-se perigosamente dos Manet e dos Matisse, dedinho em riste, impaciente e inquieto. S. seguia-o na insubordinação e desassossego, que nada tinham de artístico, juro. Pisando o risco (o risco que guarda a distância de segurança entre o espectador e a obra) correndo tudo e vendo muito pouco, semeando ventos e colhendo tempestades. De maneira que lá andei eu no meio dos quadros, qual galinha tonta, a fazer um esforço enorme para lhes abrir as pestanas, e o coração, para a contemplação da arte. E que beleza! lá estavam dois trémulos Morandi, e Van Gogh (que afinal parece que não se suicidou!), e Cézanne, e ah, espera, que belo Amadeo.
Um rodopio. Uma alegria. Felizmente está até 8 de Janeiro e contamos regressar. Com toda a calma. E baby sitter.

(paupérrima imagem de um dos quadros escolhidos por Neil Cox, comissário da exposição. O original, é de Henri Matisse, chama-se “Natureza morta, bouquet de dálias e libvro branco” e terá sido pintado em 1923. É uma das 90 obras da exposição.)

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