Género

S. rodeado de presentes de Natal, que desembrulha vorazmente, à procura do mais desejado. Vai agradecendo – com o seu próprio tempo verbal: “eu gostava muito disto, obrigada” – coisa que me espanta, não sei se pela positiva se pela negativa, numa criança de 3 anos (não devia ser eu a lembrá-lo que devemos agradecer?).

Até que abre um embrulho, dado por uma das tias-avós. É um conjunto de jogos de encaixe, e na caixa tem a imagem de um miúdo vestido de futebolista (peça que encaixa numa bola) e de uma bailarina cor-de-rosa (que encaixa num toutou). Segurando a caixa nas mãos, S. fulmina a bailarina com o olhar. Incrédulo, franze o sobrolho. Com força e obstinação. “Não gosto disto”, diz o petiz (e lá se vai a boa educação). “É de meninas”, remata. Embrulha (embrulha, mãe, embrulha).

E pronto. A isto se chama socialização. A perda da inocência. Não basta que, a partir de uma certa idade, passemos a dormir de outra forma, esquecendo-nos do abandono esbarrigado da infância. A partir de uma certa idade, somos machos, apesar dos esforços da mãezinha. É um género.

(na imagem, um dos one-offs de Margaux Lange, joalheira perita em “plastic princesses”. Mais Barbies – e Kens- desconstruídos, aqui)

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