Pão Nosso

Basta olhar para as filas intermináveis que se formam, paralelas ao balcão, na boulangerie da moda das amoreiras para perceber que Lisboa não escapa à febre do pão. Por enquanto, não temos cá nenhum Poilâne, mas o pão, que continua a ser do povo, aburguesou-se. Não foi preciso seguir a disparatada sugestão de Marie Antoinette e transformá-lo em brioches. Agora o pão-pão é nítidamente trendy, salpicado de papoila ou tingido com um exótico “curcuma”, que é só uma maneira mais remota de dizer açafrão.
Temos pão de figo e pão de passas e tudo e mais alguma coisa.
Temos designers a meter a mão na massa (como no belíssimo exercício ficcional Autarchy, dos FormaFantasma, na fotografia, de 2010).
E temos gurus de tendências a confirmarem o que deviam antever.

Li Edelkoort, a arquifamosa trend hunter holandesa, esteve em Lisboa para participar no congresso da APED, e passeou as suas intuições por uma plateia de senhores engravatados. Antes de apresentar as tendências para o Verão 2013, falou do fim do individualismo e de como todos nos iamos diluir amorosa e desinteressadamente no grupo, esse conceito orgânico e relacional, onde, helas, não precisamos de prescindir da nossa opinião para sobreviver.
Falou dos novos pais (masculinos) maternais, das famílias de 3 filhos, do novo homem romântico e delicado que vai destronar os David Beckhams deste mundo, e de um enorme e generoso sentido de partilha e de bonding universal.

E depois, quando eu já estava a acreditar que os meus filhos, os dois nascidos depois do ano 2000, iriam mudar o mundo (embora,deva confessar, tenha alguma dificuldade em imaginar S. de pálido herói romântico, magricelas e deslavado), e que a geração deles é que iria fazer o que a geração dos meus pais falhou, depois, a Sra. Edelkoort passou ao que interessa: as tendências que farão as marcas vender.

E então, para além de um catálogo interminável de cores pálidas, sunbleached e a condizer com o escanzelado heroi romântico, ficámos a saber que no Verão de 2013 todos quereremos descobrir a espiritualidade do quotidiano (a apresentação, que todos estavam proibidos de gravar ou filmar, intitulava-se  “Bliss: Spiritual Moments in Everyday Life”.)
Como se estivesse a inventar a roda, Li Edelkoort explicou aos executivos pasmados que esta espiritualidade não se encontra na meditação, ou no yoga (iôga?) ou, digo eu, já agora, nas vibrações de um qualquer CD New Age. É uma espiritualidade muito diferente, adverte a senhora. Daquela que encontramos no riso de uma criança (mesmo), ou num raio de sol a atravessar uma janela (transparente e leve, como os tecidos que não quereremos perder).

(pausa)

Ora, eu faço meditação, sim. Mas não foi preciso repetir o meu mantra, ou ouvir as revelações da Sra. Edelkoort, para perceber que podemos meditar enquanto cortamos alho francês (e de repente lembrei-me do Panda do Kung Fu).
Basta abrir a pestana e estar atento ao mundo. Como fazem os monges Zen há milhares de anos, muito antes, muito longe, deste Verão 2013 que nos espera.

A felicidade de Edelkoort vagueou mais uns instantes, de slide em slide, ora apressada, ora mais tranquila. Falou de luz, liberdade e camisolas de lã. Knitting. E também de cabeças ruivas, que estarão na moda, como se alguma vez tivesse sido fácil ignorá-las. E de glamping, glamour + camping, que para mim continua a ser um oxímoro (são dois mundos e não queremos que se cruzem, obrigada). E de pão. “smelling of bread is instant happiness”.

E aqui sim, estamos de acordo.

(sorry but this text is too long to translate right now. will do it later)

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