Paranoia :)

Acho que a primeira vez que ouvi Brad Mehldau devia ter 20 anos. A minha amiga B. trouxera-me o disco, ou os discos, porque eram três, três trios. The Art of the Trio. O Brad, o Jorge e outro qualquer, inesquecível apesar de lhe ter perdido o nome. Ouvíamo-los em repeat, certíssimas que o que é bom, ouve-se de novo. Antes de Brad, eram sessões em loop de Chet Baker, João Gilberto e todo o Scriabin que pudéssemos consumir.

Nessa altura vivia numa casa muito grande perto de Lisboa, um lugar improvável para mim, onde me sentia fora de água. O meu quarto ocupava grande parte da cave, e estava meio soterrado, com janelas que davam para o jardim. Aquelas catacumbas podiam não ter a luz de Lisboa, mas eram óptimas para ouvir os três volumes The Art of the Trio até à náusea. Há um enjoo bom, que não é enjoo, é entrega e desmaio. Pelo menos variávamos a ordem dos discos: volume 3, volume 1, volume 2. Volume 2, volume 3, volume 1. Volume 1, volume 3, volume 2. E, às vezes, arriscávamos o abuso: volume 2, volume 2, volume 2 (acho que era o preferido).

Com o tempo, a insistência na arte do trio foi esmorecendo. Brad Mehldau ia editando novos discos, a solo ou com os seus amigos de Barcelona, e eu seguia-o, serena e voraz. Vi-o ao vivo, do outro lado do rio, no festival de Almada. Também ao vivo a experiência foi “em repeat”: conseguimos, graças às insuperáveis “connections” de B., deixar-nos ficar para o segundo concerto (eram dois seguidos), quando só tínhamos bilhete para o primeiro.

Jump cut para 2012. Sou eu a ouvir Brad num cenário novo. O que me rodeia, o que me acompanha, o cenário interior que entretanto construí e deixei formar-se mim. Ele também está diferente: mais magro, fininho e genial, a cabeça grisalha, as maçãs do rosto salientes. Agora não é o menino prodígio do jazz. É um virtuoso assumido. Uma star. Com o seu silêncio e sobriedade. Senta-se ao piano e toca. Acaba o trabalho e parte. Emudece-nos. Sentimos que o que para nós é maravilhoso, para ele deve ser uma tortura. Há vários encores, e Brad como um pêndulo curvado, oscilando entre a trip perfeita, solitária– toca quase de costas para o público, dobrado – e um tímido contacto com a plateia emocionada. Brad muito sério, a brincar com covers dos outros: Beatles e Nirvana e Radiohead. “Smells Like Teen Spirit” e “These are a few of my favourite things”, líquidas e perfeitas, deslizando no azul do som.
Um exacto mês mais tarde, vejo Radiohead no Alive. No fio de “Paranoid Android” oiço, ao longe, o piano de Brad. O riff na ponta dos dedos longínquos de Brad. Faz-se grande. E pequenino. Lembro-me de embalar S., ainda a flutuar cá dentro, ao som de “In Rainbows”. E agradeço estar aqui.

(A Net também serve para isto: em 1997, os RadioHead lançaram OK Computer, e Brad Mehldau o volume dois do The Art of the Trio, ao vivo no Village Vanguard. Paranoia)

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