Ne rien faire

Comment ne rien faire é o título primoroso da obra-prima do desenhador de BD Guy Delisle, autor das raras Chroniques Birmanes que devorei em duas noites (e um bocadinho) durante este verão. Comment ne rien faire é  por enquanto só uma miragem, um ponto qualquer, mais ou menos distante, num futuro de leituras que planeio realizar. Mas um título assim até podia ser só isso, que bastava. Não era preciso dizer mais nada, escrever o que quer que fosse, ou desenhar uma linha. Um título assim diz tudo, basta-se a si mesmo.

(como o blog do autor, de resto, comme ci, comme ça)

(É esta economia – no traço, no verbo e na sua ausência, nas cores, na  estrutura narrativa- que desconcerta no trabalho de Guy Delisle. Autêntico, afectivo, directo, crítico, político, fraco e heróico, e com um humor que começa precisamente na capacidade de se rir de si próprio, Delisle é quase sempre sintético, e deixa-nos a sensação reconfortante de que não lhe escapa nada, que está lá tudo, as coisas como são, e que só deixa pontas soltas quem quer.Ou não sabe.)

Agora que a silly season chegou ao fim, pareceu-me a altura ideal para evocar este título/livro que convida a não fazer nenhum. Desde pequenina que me habituaram a dar valor a essa espécie de inércia activa – e criativa- que consiste em não fazer rigorosamente nada e sair ileso, fortalecido, melhor. Porque se gozou tremendamente fazendo nada, porque, justamente, (não) fazendo nada, se fez tudo, e tudo sem cair na indolência. Hoje admiro contemplativamente os mestres do farniente: vivos, lúcidos, despertos, serenos, quietos mas não parados.

Chroniques Birmanes é uma daquelas pérolas que encontramos raramente, e recomendamos vivamente. O autor, um bédéiste canadiano, seguiu a mulher, médica da ONG Médecins sans Frontiéres, até à Birmânia, para uma missão de vários meses. É o relato desses dias, em que Delisle luta contra o calor e a humidade, babysitta gloriosamente Louis, o filho bebé, desenha BD e organiza workshops de animação, socializa, observa e questiona, que está nestas crónicas de inteligência, humor e brilho.

É raro, e é bom.

O meu livro do verão, e já corro as livrarias, formiguinha, a preparar o outono e o inverno.

(as imagens são todas de Guy Delisle, e uma visita ao site e ao blogue também se recomendam)

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