A minha estante dava um livro

Quando, num curto “espaço de tempo” – porque é que me rio de cada vez que escrevo isto? – tropeçamos várias vezes na mesma pessoa, objecto, ideia, convém prestar-lhe alguma atenção. Uma série de felizes tropeções levaram-me nos últimos dias a Jane Mount, artista norte-americana que faz estes retratos-de-pessoas-pelos-livros-que-têm-na-estante. O projecto chama-se Ideal Bookshelf e já tem uns aninhos.

Mount acredita- e eu também – que os livros que lemos dizem muito sobre nós (aqueles que não lemos também, é um facto).

Os livros que temos nas prateleiras, em cima da secretária, em montinhos ordenados que crescem do chão como construções, os livros esparramados e lânguidos, derramados ao lado da cama… Todos. Os que temos, e já lemos, os que fazem parte da nossa biblioteca imaginária e aqueles que olhamos, sonhamos, namoramos, mas que nunca ousamos retirar da estante, abrir e ler. Aqueles que tivemos e perdemos, aqueles que guardamos, os que esquecemos, e aqueles para onde sempre voltamos.

Mount, que estudou em Manhattan e vive na Califórnia, sabe bem que os livros falam. Falam pelos cotovelos. Mesmo quando estão em silêncio, adormecidos na prateleira à espera que alguém lhes pegue. Fazem poses, têm gestos. São o que são, autênticos e crus, virgens e desfolhados.

Por isso pinta  retratos de pessoas pelos livros. Composições reais ou ficcionadas  (os livros pintados não têm de estar necessariamente por esta ordem, ou dispostos assim, na “vida real”, na quietude das estantes dos seus donos) feitas a partir de livros “físicos” (livros modelo) que imitam, na sua capacidade de inventar e reconstruir a realidade, os fios narrativos que estão dentro dos livros “mentais” (aqueles que só acontecem dentro das nossas cabeças).

Agora, as obras e ilustrações bibliófilas de Jane Mount viraram, elas próprias, um livro. Chama-se My Ideal  Bookshelf e reúne os livros das vidas de mais de 100 personalidades, em testemunhos escritos, recolhidos por Thessaly Laforce, e claro, nas belíssimas ilustrações de Mount.

No website, para além das ilustrações em série (como estas que aqui reproduzimos, mesmo a calhar para o Le Playtime: uma prateleira com livros de design, outra com  livros para crianças) Mount propõe, por uma simpática quantia, fazer retratos personalizados a partir de uma selecção de livros “sur mesure”. Enquanto não escolhemos o nosso Top 7 pessoal, tomamos a prateleira do actor James Franco (aí em cima) clássica, penguinesca, afincadamente americana (com algumas requintadas latinices à mistura), como inspiração. Bem naice, com um Fitzgerald de Coralie Bickford-Smith e tudo.

“She is too fond of books, and it has turned her brain” (Louisa May Alcott)

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