Papa Mobile

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Faço parte daquele grupo de pessoas para quem um carro é apenas um habitáculo, movido a motor e com quatro rodas, que serve para nos deslocarmos de um sítio para outro. Há quem diga que os carros são espelhos dos seus donos, que um carro limpinho e ordenado é o reflexo de um dono com as ideias bem organizadas, provavelmente metódico, cuidadoso e asseado. Não preciso de dizer o que pensarão estas pessoas daqueles que, inversamente, acumulam papelada, grãos de areia, migalhas, sacos de plástico, troféus infantis de cadeias de fast-food, sweat-shirts e quejandos dentro da cabine das suas viaturas.

Mesmo integrando este cada vez mais restrito – quero crer – grupo de funcionalistas dos automóveis, não deixo de ser uma alma sensível e com algum sentido estético. Por isso, sempre que visito o Museu do Caramulo (que fez 60 anos e recentemente venceu o Prémio Vilalva da Fundação Calouste Gulbenkian) vibro tanto com os quadros como com os bólides. E por isso, mesmo sem perceber patavina do assunto, e mesmo sendo, em ocasiões, uma mulher do “dézaine”, em matéria de motores, rendo-me aos clássicos.

E é por isso que, de cada vez que me perguntam “deseja factura?” respondo “não, muito obrigada, não desejo. A posse de um Audi não contribuiria em nada para a minha felicidade”. Penso: ainda se estivessem a sortear umas 4L ou um fortalhaço jipe UMM, aí, sim, poderia dizer: mon coeur balance. E mesmo assim, duvido que me vendesse. Porque acima do meu amor pela beleza, está o meu amor pela liberdade. E esta história das facturas e de sorteios, tem contornos PIDEscos. É mesmo assim. E isso, felizmente, foi enterrado há 40 anos, debaixo de uma cama de cravos vermelhos. O resto do argumentário está bem espelhado neste texto da São José Almeida.

Se quiser jogar, vou ao Casino (onde nunca entrei, já agora)

Voltando às viaturas, que servem para nos levar de um sítio a outro. De preferência em segurança, com as janelas (de manivela) abertas e ventinho na cara. Há uns meses, um energúmeno qualquer fez o favor de embater na parte traseira da minha viatura, enquanto eu circulava, placidamente, na autoestrada, a caminho da escola das crias. Enquanto o meu carro esteve na oficina, o  A. emprestou-me uma carrinha Renault Express de 1992, branquinha como a cal, que baptizamos carinhosamente de Papa Mobile. A carrinha até é simpática. Diz-me o meu A. que é extremamente luminosa. Mas não é fácil.

Desenvolvi, ao longo de algumas semanas, uma relação de amor-ódio com o bicho, que, como todos os bichos, mesmo os mecânicos, tem os seus caprichos. Aprendi o que era “puxar o ar”, fenómeno que confesso, desconhecia totalmente e do qual ainda não descortinei todo o mistério (mas se puxamos, abrimos ou fechamos? Eis a grande questão). Quase a afoguei, e houve algumas curvas em que suspeito ter ficado apenas com duas rodas verdadeiramente assentes no chão. Já para não falar das vezes que, empertigada, lhe dava para dar um coice, como uma mula, agitando os quadris de lata.

Enfim, bons tempos, que felizmente já passaram.

(a ilustração é mais uma vez da autoria de G, e acreditem que reproduz fielmente o nosso cortês companheiro de corridas)

 

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