Lá Fora (este livro não é para meninos)

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Não é por acaso que uma das páginas iniciais do novo livro da Planeta Tangerina, Lá Fora, mostra um rapaz, uma rapariga, um cão (e um gato empoleirado no parapeito do terraço) numa açoteia a olharem, lá em baixo, passar o provisório sossego da selva de betão. Eles estão Lá Fora. Rodeados de plantinhas e animais muito simpáticos, Lá Fora. Na cidade, mas Lá Fora.

Lá fora, que é precisamente o lugar onde todos queremos estar (e para onde mandamos insistentemente as nossas crias, na esperança de que se façam rijas, e fortes, e felizes, e que regressem com as bochechas rosadas e o olhar ainda mais brilhante).

Voltando ao que interessa: este rapaz, esta rapariga (este gato, este cão), podiam estar a fazer uma data de coisas dentro de casa, a subir de nível em jogos que  não levam a lado nenhum, ou a aparvalhar à frente da televisão, ou a arranhar sofás, mas preferem estar Lá Fora. Porque são miúdos espertos, felinos vivalhaços, que percebem que a Natureza é muito mais interessante e comovente e excitante do que parece, e está tão perto, Lá Fora.

É isso. Este livro não é para meninos.

(a trabalheira que dá despertar a atenção dos nossos filhos para o mundo Lá Fora. A beleza das searas, dos carvalhos, das papoilas, dos rios, das pedras, das estrelas.  Das lagartixas e das ovelhinhas. A sério. Do som do vento e da água da chuva. Agradeço aos adultos à minha volta todos os minutos que me deram para me mostrar a estar atenta e contemplar)

É evidente que este bonito volume da Planeta Tangerina (pesa 1kg e levou 2 anos a fazer, contam no blogue. Foi lançado no primeiro dia da Primavera, comme il faut) não foi feito a pensar nas crianças que vivem no campo. Pelo menos não nelas. Essas, mesmo com a concorrência da televisão (e a televisão leva muitas coisas às crianças que vivem no campo, é preciso não esquecê-lo), aprendem desde muito cedo a distinguir as ervas daninhas das plantas boazinhas, os pássaros, as pegadas, e até a distinguir os dejectos de animais. Com sorte, aprenderão a contemplar o universo, e a adivinhar as constelações que nele se acendem, mesmo sem que ninguém as tenha ensinado. E todas, quero crer que todas, terão experimentado o inefável prazer de se deitarem aos pés de uma árvore e  verem o céu desfilar por detrás das folhas cintilantes.

As crianças da cidade não são bem assim. Precisam, como bem se lê neste Lá Fora, de um “empurrão” (zinho).

E é por isso que este livro, que não é para meninos, é para meninos da cidade. Urbanos, não depressivos, mas urbanos. E para os pais desses meninos (que até sonham com rooftoops, povoados de hortas biológicas e ovos verdadeiros das galinhas da casa). E depois?

É óptimo. Era preciso. Tem sentido. E recomenda-se.

Este  livro, belíssimo mesmo só na capa (lembrei-me das sombras de Lourdes Castro, mas se calhar é só distorsão) é como uma verdadeira tangerina, tão lustroso e apetecível por fora como sumarento e perfumado por dentro.

Escrito a duas mãos por duas biólogas – Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário- e magnificamente ilustrado por um dos fundadores da editora, Bernardo Carvalho (de quem guardamos amorosamente Pê de Pai e Um Livro Para Todos os Dias), cumpre largamente o seu objectivo de não ser um volume teórico para ratos de biblioteca (mesmo os pequeninos) mas um verdadeiro convite (e formidável guia, já agora) para descobrir a natureza. Cheio de explicações para coisas aparentemente inexplicáveis, desfazendo mitos (como o do mar ser azul porque reflecte a cor do céu), propondo actividades e convidando, sempre, a sair e pisar o terreno, urtigas incluídas.

Com revisão técnica de uma equipa de especialistas (cientistas) portugueses, com a cabeça nas nuvens e os pés bem assentes na nossa terra (é um livro sobre Portugal, que tem pés para ser gobal, mas quando é bem feito, só o local já é bom) seria imaculado, quanto a mim, se as páginas sobre astronomia fossem mais completas (por exemplo, que tal um mapa para identificar as principais constelações?)

O livro mais do que vale o preço que tem (é feio dizê-lo, mas fica abaixo dos 25 euros) e é económico em todos os sentidos: está bem escrito, numa linguagem clara e acessível (não em enfadonho “cientifiquês”), sem complicações nas palavras e sem complicações nas imagens (lembrei-me  de Bruno Munari, mas se calhar é só distorsão). Até na cor, o livro é parco mas incisivo (com excepção de um caderno central, com ilustrações coloridas de árvores, anfibios, pássaros e outros seres vivos, todo o livro se passa em laranja, azul, preto e branco).

Resumindo: uma maravilha. Tangerina.

E agora? Agora vão brincar lá (para) fora.

(Enquanto não nos lançamos como exploradores da Natureza, cá em casa vamos descobrindo o livro à vez. Em escadinha, a começar no mais pequeno – um, dois, três, quatro-  e a acabar no mais velho. De vez em quando, o livro desaparece. Depois reencontramo-lo, talvez até na mesa de cabeceira de um adulto, entre a Clarice e o Boris, por exemplo, à espera de vez).

 

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