Há Caracóis

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mineralogia

 

Considero-me um “garfo” em progresso ( em breve irão ter notícias disso mesmo aqui no playtime), que para mim é quase o mesmo que dizer que sou um garfo progressista. Gosto de comer, e de beber, coisas novas, e cada vez mais retiro mais prazer daquilo que como e bebo, e da circunstância e companhia em que o faço. Deve ser da idade. Veja-se o MEC: começou a escrever sobre música quando ainda vivia em Inglaterra, e agora, na calmaria de Colares, para além de perfeitas declarações de amor à sua querida Maria João (que é querida de todos nós), escreve, essencialmente, sobre comidinha. Livros e comidinha.

Como garfo progressista, tenho tido a sorte de experimentar muitas suculentas iguarias e belas pomadas, sempre nas melhores companhias, graças ao Universo. Mas há uma coisa, que, tanto quanto me lembro, nunca experimentei: caracóis. A minha querida amiga J. jura-me que no Meco, depois da praia, são do melhor que há neste mundo e no outro, mas eu torço sempre o nariz. Não os quero, nem da terra, nem do mar. Não quero nem vê-los, nem cheirá-los, nem, sobretudo, prová-los. É um preconceito, sim. Mas os caracóis irritam-me. E sendo um clássico petisco português, bem popular, soam-me  a Marialva, o que faz com que me irritem ainda mais. Os monárquicos e o povo não estão tão distantes como parecem, já se sabe.

Há uns dias, depois de um passeio pelo jardim da Tapada das Necessidades fomos descendo até à Rua das Janelas Verdes, e, para alimentar a criação, parámos rapidamente naquilo que normalmente se designa por tasca infecta. No hard feelings. Todos boa gente, televisão panorâmica na esplanada, a bola a rolar, o aparelho sobre uma toalha coçada com animados prints de galos de Barcelos, muito fino e muita mini, na montra envidraçada vários autocolantes e outros “reclames”, caixilhos de alumínio e o clássico “Há Caracóis”. Receberam-nos muito bem. Comemos umas empadas de galinha que não estavam más de todo. E os caracóis, ainda nos foram propostos, mas o meu A. nem perdeu tempo a olhar para mim. Há perguntas que não se fazem.

Escapei.

Ontem fui almoçar a uma conhecida cadeia portuguesa, com certeza, e a minha amiga S. convida-me para uma salada de salmão fumado. Muito gira: com alface muito verde, salmão muito salmão (salmão doméstico, é claro, aqui não há tempo para a pesca selvagem), uma imitação de Feta, cebolinhas em pickles e retorcidos e transparentes rebentos de soja. Molho, nem vê-lo. Tanto faz, temperamos com azeite e vinagre (ou vinagre e azeite, que na salada fica melhor por esta ordem, aprendi em Espanha). E lá estamos nós, conversando alegremente, cada uma com a sua saladinha colorida à sua frente. E um sumo super saudável, e uma água fresquíssima. E faux Zagalos nos pés. E então, enquanto aproximo mais uma garfada da boca, vejo-o. Um caracol. Sem casca. Uma pequenina lesma, viscosa e feliz. Arrastando-se pela superfície espelhada de uma folha de alface com um brilho bem temperado. Confirmei com a minha amiga. Choque. Pousei o garfo no tabuleiro, e a lesma desceu, descansada, largou a folha e lá prosseguiu o seu caminho, o seu espantoso e formidável percurso de vida, agora num tabuleiro castanho de plástico.

Que maravilha, pensei eu. Há uma lesma no meu prato. E eu vi-a antes de a engolir. Quais são as probabilidades de haver duas lesmas no mesmo prato? No centro de Lisboa, quero dizer, não na selva Birmanesa. Poucas, muito poucas. Com sorte, não engoli mais nenhum corpo estranho.

A minha amiga, entre o nojo e os nervos, não tocou mais no seu prato. Eu perdi o apetite, também. Mesmo sabendo que a presença do intruso invertebrado nem era mau sinal de todo. Se a alface fosse de plástico, ou transgénica, provavelmente não estaria lá, o animalzinho. Peguei no tabuleiro, com cuidado para não ver a lesma deslizar de vez e estatelar-se no chão, e dirigi-me ao balcão. Pedi para ver o responsável. Expliquei, com delicadeza (a meditação tem estes efeitos), que tinha encontrado um “caracol, caracol com os pauzinhos ao sol”, na minha salada. A menina da caixa deixou cair a cara de espanto. Disfarçando o embaraço indisfarçável, manteve-se muito direita e mandou um rapazinho ir chamar o responsável. O único assomo de sobressalto, que quase a traía, foi um “Fast!” lançado ao colega. Assim, dito em inglês, para condizer com o ambiente do restaurante. Fast.

O responsável lá veio, eu apresentei-lhe a lesma que já tinha feito um bom caminho, e confesso que naquela altura já sentia pena dela. Era querida. O responsável ouviu-me e disse “peço desculpa”. Assim. Mais nada. Tive pena da lesma, e pena do rapaz. Estava só à espera de uma reacção. De mais qualquer coisa. Mas não chegava. Eu olhava para ele, ele olhava para a lesma, e então lá abriu a boca “Nós desinfectamos muito bem as saladas”. Desinfectam, sim, lavar é que não. Novo silêncio. Agora o rapaz segurava o tabuleiro na mão, e a lesma precipitava-se, na bordinha, quase lançando-se para o vazio. Triste fado, o da lesma, terminar num chão artificial, de mosaico hidráulico falso. Tragédia. Então tive se ser eu sugerir: como obviamente não tinha fome para comer mais nada, não ia pedir que me dessem outra coisa. Pensei num café.

Terminada a refeição, continuamos o almoço. Trouxeram-nos dois cafés, que bebemos (eu literalmente na esperança de matar o bicho) não sem antes perguntar se continham algum insecto. Como uma fortune cookie chinesa. Antena? Par de asas? Pauzinhos?

Um piolhinho perdido, talvez?

Tudo isto disse entre risinhos, nesta casa portuguesa. Separei-me da minha amiga, feliz porque melhor que a comida, é a companhia.Estas coisas acontecem. Aos melhores. Uma vez a minha mãe encontrou uma barata a nadar num café servido na esplanada do Fouquet’s.

Fui buscar as crias. Parei num café a escrever estas linhas. Para lavar a boca, e a alma, pedi um delicioso gelado de maçã verde e gengibre e sorvete de abacaxi. Dois sabores bem frescos, amarelo e verde, numa bola generosa. Que sossego. Agora posso dizer a marca, que não faço mal a ninguém: são da Artisani, e estes sim estão bons e recomendam-se.

 

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