Os anos do bicho (105)

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Hoje foi dia de Santos*.

Fugimos do calor para o jardim mais luminosamente sombrio de Lisboa: as Amoreiras. Estava-se bem. Havia quem refrescasse os pés num barco insuflável cheio de água. Havia livros em modo tag sale. Porcelanas cristalinas. E um homem a dormir, indiferente a tudo, menos ao pombo que dormia com ele, enroscadinho e débil, a pata presa num cordel.

Havia um recital – trompete, cravo e soprano (?) – que ouvimos en famille, enquanto eu deambulava pela Fundação, até me deter num quadro chamado Les Treize Portes, onde só cheguei a contar doze, mas a derradeira, e porventura mais importante, estava na minha cabeça, entreaberta.

(antes detivera-me nos dedinhos minúsculos e perfeitos da filha do trompetista, uma flor cor-de-rosa aninhada no colo da mãe, como se ainda estivesse na barriga)

E havia uma visita ao atelier de Vieira, mesmo ali ao lado, uma sala despida com uma sábia lareira ao fundo, fotografias percorrendo as paredes, onde adivinhámos os cheios que um dia preencheram o vazio. S. cruzou as pernas, e sentou-se no chão, obediente. G., o intrépido, furou a pequena multidão e sentou-se tranquilamente nas escadas que conduziam a uma porta que ninguém ousou abrir (a porta conduzia à casa). Fomos ouvindo histórias de Vieira e Arpad, de Arpad e Vieira. De bichos e do Bicho lindo que ela era, para ele, que a pintava, desenhava, contemplava até à exaustão. Vimos, nas fotografias que percorriam as paredes, os sinais do amor, o mundo que fizeram e habitaram, a cadeira de vime repetida, um mobile de Calder repetido, pairando sobre aquela cabeça perfeita coroada de camélias imaginárias. Eles eram o casal perfeito, parece que disse a professora Raquel Henriques da Silva, e haverá perfeição mais inconstestável que esta? Viveram juntos 55 anos. Vieira teria feito hoje 105. Maravilha.

(também houve bolo, e bom, mas esse fica para a sobremesa, amanhã)

(*Santo António, Santa Helena. E São Fernando, Pessoa – e os outros – que também nasceu a 13 de junho de um ano distante, e agraciado. A Santíssima Trindade, portanto)

 

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One response to Os anos do bicho (105)

  1. […] cedo, e mesmo de barriga cheia (já tínhamos assistido ao recital e à visita ao atelier da artista) esperámos ansiosos. Íamos inocentemente convencidos que se tratava de um bolo em progresso […]

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