Espetada

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O design não é a cereja no topo do bolo, dizem-nos os benfeitores do Fabrico Próprio. Não é, de facto. É o bolo inteiro. A cereja toda. Caroço, polpa, pele. De dentro para fora. De fora para dentro. Vulcão e crosta. Erupção. Projecto e processo. E pensamento. E o traço, e o traço.

Às vezes, trinca-se. Timidamente. Às vezes come-se e somos vorazes. Às vezes enjoa tanto que nem vê-lo.

Não é o caso.

Ontem, provámos um bolo para Vieira. Era uma festa de anos póstuma, e essas, felizmente para os que cá ficam, às vezes também sabem bem. Antropófagos do design, comemo-nos nos cubinhos coloridos. Provámos o bolo, a cereja, o caroço, a polpa, a pele. Era carnuda, e sentimos a sua acidez transformar-se em doçura.

O design faz-se de dentro para fora. Como este bolo cravado numa estrutura de paralelipípedos de madeira. Onde as espetadas, espevitadas, se iam encaixando. Palito atrás de palito – que doçura – três cubos em três sabores (laranja, agrião, alfarroba), cobertos de chocolate.

Estava delicioso. A receita, não a sabemos, que estes senhores não são pasteleiros nem “Fabrico Próprio” é um livro de receitas. A receita sabe-a o mestre Paulo Santos e basta. Espero que não a conte a ninguém, não porque não seja boa, mas porque é boa de mais para se abandonar à insensatez da repetição desastrada. (Ainda assim, dão-nos uma pista: trata-se de uma espécie de quatre-quarts revamped. O que significa, para quem não sabe, que a base é uma mistura de farinha, manteiga, açúcar e o sabor que  individualiza o bolo em partes iguais. Um quarto vezes quatro, quatro quartos). Paulo Santos confeccionou uma parte do bolo na sua fábrica das Caldas. Cozeu-o no forno. A outra parte, foi montada no átrio do museu.

Chegámos cedo, e mesmo de barriga cheia (já tínhamos assistido ao recital e à visita ao atelier da artista) esperámos ansiosos. Íamos inocentemente convencidos que se tratava de um bolo em progresso – destes modernos – que se ia montando e desmontando à medida que se aproximavam os comensais, até não restar mais que uma migalha solitária. Não era bem assim. Como qualquer bolo (mesmo estes modernos) espera-se que esteja pronto, e, sopradas as velas, corta-se a primeira fatia.

Teria sido engraçado fotografar o bolo passo a passo, dentada a dentada. À medida que aquela cidade se ia desfazendo para dar lugar a outra. Como as nossas cidades.  E as cidades de Vieira. E ficar ali para ver nascer um skyline cambiante.

Não ficámos. As crias já levavam algum tempo ali, e começavam a rosnar, impacientes. De maneira que um passarinho cheio de piedade lá nos arranjou três fatias –pinchos, espetadas- que saboreámos, de surra, a uns 50 passos de distância, ainda a procissão ia no adro.

Agradecidos, os brotos perguntavam-me de que era, aquele bolo tricolor. Ficaram-se pelo reconhecimento da laranja, e borrifaram para o resto (mas comeram, comeram e felizes). A curiosidade matou o gato, mas não a fome e muito menos a gula. Com o bolo na boca, queriam lá saber se o agrião se come na sopa, ou salpicado nas saladas. Ou num bolo em quadrícula. Se a alfarroba é algarvia e nunca mais ninguém a viu. Nem, feita pó, em farinha. Esqueceram as recomendações do Fachada, e comeram a sopa até ao fim. Lambuzaram-se com tudo. Ferraram o dente e a alma. Limparam os beiços com as costas das mãos, como convém a dois rapazes bem educados, e partimos à aventura. (E tinhamos guardanapos cor de chocolate, a condizer, que a estes meninos não lhes escapa nada). Partimos à aventura que amanhã é outro dia mas este já cá canta.

(as belas fotografias, exceptuando as dos meus adoráveis alarves, facilmente identificáveis, são do Luís, gentilmente cedidas pelos Pedrita, co-autores do projecto Fabrico Próprio com Frederico Duarte)

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