O terceiro livro

icon-082014-06-13 18.39.26

G. chamou-lhes “casotas”. Eu prefiro chamar-lhes casinhas, barraquinhas, ou, quando se tornam obscenas, como algumas que vimos de proporções inimagináveis, com apitos e seguranças fardados, “standéres”. Foi assim, de casota em casota, que deambulámos pela Feira do Livro um dia destes. Era o último dia da feira, que, segundo a organização, recebeu mais de 500 mil visitantes. O que não me parece nada mau, se considerarmos que o Estádio da Luz, num só dia, senta 65 mil pessoas.

(a propósito de futebol e literatura, vide o texto do MEC, hoje, no Público. Só um senhor para escrever 7 vezes “merda” nos dois primeiros parágrafos do texto sem perder a elegância e a graça. Par contre, há quem se afunde escrevendo uma só vez, num texto já de si desenxabido, um apagadíssimo “caraças”. E nem assim arrebita.)

Assim percorremos aquelas ruas e praças artificiais. S. sempre de mãozinha na minha, a empoleirar-se como podia, para espreitar as bancadas demasiado altas, onde os livros esmoreciam lavados pelo sol. G. mais na corrente, a deter-se em todos os livros inúteis – se é que há algum livro que assim possa chamar-se, porque me parece que todos, mesmo os mais estúpidos, contêm alguma coisa que vale a pena, nem que seja a sua insuperável estupidez – que conseguia encontrar. Assim ia o meu filho, de disparate em disparate. Eu a puxá-lo para o Corto Maltese e ele a deter-se numa BD cheia de volúpia, de linha duvidosa.

Enfim. A pré puberdade. Não há mesmo livros inúteis.

A verdade é que de disparate em disparate, de delícia em delícia, lá percorremos o paraíso prometido e trouxemos para casa alguns troféus. Sobretudo para cobrir aquelas imperdoáveis lacunas que se abrem em qualquer estante à medida que acumulamos livros. Inúteis. Para eles, um clássico de Tim Burton, uma Catarina Sobral (o magnífico “Greve”, lá iremos, lá iremos) e o livro de Dinossauros nº 547 (perdi-lhes a conta). Com janelinhas e ferozes mandíbulas, sem falhas e aguçadas. Para a mãe galinha, as cartas de amor Miller/Nin, o verão de Paulo Varela Gomes (depois de “Hotel”, como não chorar por mais?) e um terceiro livro, cuja identidade não revelarei, pois arrependida, tentei devolvê-lo no dia seguinte, na livraria que pelos vistos também é editora. Impossível. O rapazinho do balcão lá tentou, mas o stock da Feira estava fechado e se o quisesse trocar que o tivesse trocado na Feira, que acabou.

Não sei se foi castigo, nem me parece que tenha sido só impulso. Sei que o terceiro livro acabou por ir parar ao saco de onde nunca deveria ter saído (ou sequer entrado) porque eu posso até não querer lê-lo (as pilhas de celulose encadernada à minha volta começam a ter um leve ar de ameaço) mas ele quer ler-me a mim. Lá isso quer. E é já hoje, para não perder o embalo.

(como não tirámos nenhuma fotografia na feira do livro, mas este é apesar de tudo um post sobre livros, aí fica uma instantânea de recommended readings. Siri, Lourdes, e Vieira. São as minhas três fadas madrinhas do momento).

Anúncios

Respond to O terceiro livro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s