A Defesa (Xadrês e Borboletas)

 

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Vladimir Nabokov é facilmente um dos meu escritores preferidos, mas mesmo nos amores verdadeiros há algumas diferenças insanáveis. Foi assim que, apesar de me deixar embalar com leveza e insouciance nas suas ásperas asas amorosas, durante anos houve coisas que simplesmente não conseguia entender. Duas coisas, para ser mais precisa: a primeira era a obsessão desenfreada do escritor por borboletas. A segunda, a sua conhecida devoção pelo xadrês. Claro que os motivos que me levaram, durante tanto tempo, a isolar-me numa espécie de “solitária” intelectual (e afectiva) e não comunicar com estes dois lados absolutamente essenciais da persona de Vlad eram de natureza muito diferente. Um, advinha da repugnância em estado bruto, outro, da mais cristalina das ignorâncias.

Durante anos, as borboletas – mesmo as mais luminosas – repugnavam-me. Uma coisa marada, assim como o Hitchcock não poder ver um ovo estrelado (aliás, qualquer coisa em forma de ovo, ou qualquer ovo em forma de coisa) sem ter uma apoplexia. O meu caso era menos severo. E penso que, como tanta coisa na vida, esta incapacidade de comunicar com o delicado ser alado pode encontrar as suas raízes na infância.

Um dia, há muitas nuvens atrás, tiveram a brilhante ideia de me oferecer uma caixinha de cartão cheia de viscosos bichinhos de seda (alimentados a folhas de amoreira, vá-se lá saber porquê. E ainda por cima são esquisitos e maus garfos) que eu devia cuidar, deixar correr entre os dedos, e observar enquanto se desdobravam nas várias etapas da sua metamorfose extraordinária. Acontece que esta metamorfose não tinha, aos meus olhos, nada de extraordinário. Os bichos de seda (pelo menos os da Península Ibérica) são lagartas sem graça, desmaiadas, pardas e de andar lamacento, e dão borboletas esmorecidas, quase incapazes da voar. São negações de borboletas.

Depois, percebi que, como em quase tudo na vida, há borboletas e borboletas. E nem todas vêm de sedosos bichinhos cor de nada. Hoje, sobretudo na Primavera que é quando se tornam mais sociáveis, se vir uma borboleta num jardim público*, sou a primeira a estender a mão, esperando secretamente que ocorra o milagre, e ela aí decida pousar. Agora que já passei claramente a fase das borboletas na barriga, adoro tê-las à minha volta, graciosas e ágeis, como doidas. Torço para que se detenham, abrindo e fechando o seu esplendor, até decidirem levantar voo outra vez.

Done com as borboletas.

Um bocadinho mais perto de Vlad (que as caçava e pendurava com punaises) caminho confiante no tabuleiro de xadrês. A princípio, temerosa e indecisa. Pouco a pouco, cada vez mais viva. Que maravilha e que beleza. Um mundo abstracto de cavaleiros audazes, e rainhas poderosas e reis mais contidos, mas subitamente revelados. Não percebo nada de xadrês, já se viu. Mas o prazer que tenho em jogá-lo, inconscientemente, com G. E o prazer redobrado de ter sido o meu filho a ensinar-me a mexer estas peças, como a vida.

Melhor que estas tardes de xadrês na mesa do jardim, só um tabuleiro nos telhados de Paris. Como Duchamp e Picabia, évidemment.

* Ah the delight of the public park- that strangely democratic place where locals silently conspire to respect each other’s privacy…

(nas imagens, G. e M. jogam xadrês num tabuleiro portátil da Imaginarium)

 

The Defense (Chess and Butterflies)

Vladimir Nabokov is easily one of my favorite writers, but even true love has its irremediable differences. This is how, although I let myself lull in the lightness and insouciance of his harsh amorous wings, for years there were things I simply could not understand. Two things, to be more precise: the first was the writer’s unbridled obsession with butterflies. The second, his well-known devotion for chess. Of course, the reasons that took me, for so long, to hide in a kind of intellectual (and emotional) “solitary” and choose not to communicate with these two absolutely essential aspects of Vlad’s public persona were of very different nature. The first came from sheer repugnance, the second, from pure ignorance.

For years, I found butterflies – even the more luminous – simply appalling. A freaky thing, similar to Hitchcock not being able to see a fried egg (anything in the shape of an egg, or an egg in the shape of anything, for the matter) without having an instant apoplexy. My case was less severe. And I think that, as often happens in life, my inability to communicate with the delicate winged being can find its roots in childhood. One day, many clouds ago, someone had the brilliant idea of giving me a cardboard box full of viscous silk worms (fed with mulberry leaves, one wonders why. As if this was not enough, they are fussy about food) that I had to take care of, let slip through my fingers, and observe as they unfolded in the various stages of their extraordinary metamorphosis. The metamorphosis, as it happens, didn’t have anything extraordinary to my eyes. The silk worms (at least those from the Iberian Peninsula) are graceless caterpillars, fainted, whitish, muddy walkers, and they become pale butterflies, almost incapable of flying. They are the very negation of butterflies.

Today, mostly in spring, when they become more sociable, if I see a butterfly in a public park, I’ll immediately stretch my arm, open my hand, secretly waiting for the miracle to occur, as it decides to land on my palm. Now that I’ve clearly passed my butterflies-in-the-stomach-phase, I love to have them around, gracious and agile, plain crazy. I cross my fingers to see them pose, opening and closing in splendor, until they decide to fly again.

Fini with butterflies.

A little closer to Vlad (who hunted them and pinned them using punaises) I walk confidently on the chessboard. Fearful and doubtful, at first. Getting livelier, little by little. How marvelous and beautiful. An abstract world of audacious knights, powerful queens and restrained, yet suddenly revealed, kings. I don’t have a clue about chess, evidently. But the pleasure I take in playing it, unconsciously, with G. And the redoubled pleasure of having my son teach how to move these pieces, as in life.

Better than these afternoons of chess, at the garden’s table, only a chessboard over the roofs of Paris. WithDuchamp e Picabia, évidemment.

*Ah the delight of the public park- that strangely democratic place where locals silently conspire to respect each other’s privacy…

(in the photos, G. and M. are playing chess in a portable chessboard by Imaginarium)

 

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