Ozu (há uma latinha que separa)

 

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Há uma latinha que perpassa o filme de Ozu, Bom Dia (1959). Tem escrita a palavra “peace”. Ela avisa-nos que estamos no Japão do pós-guerra. E que esse pós-guerra, se escreve, também, com caracteres ocidentais.

Por muito que nos delicie a cara rechonchuda de uma das crianças que protagonizam o filme – o mais novo de dois irmãos que entram em conflito com os pais, e fazem um voto de silêncio, exigindo ter televisão em casa – (e a maneira como diz “Sayonara”, seguido de “I Love You”) este filme não é sobre crianças, nem tão pouco – só –  sobre o olhar que estas têm sobre o mundo dos adultos. Com toda a rebeldia e candura que os caracteriza, os “meninos nipões” não são um Antoine Doinel do Sol Nascente.

Para além de ser um filme sobre o Japão depois de Hiroshima (e Hiroshima está lá, e não é só na latinha redentora) Bom dia é, como muitas fitas de Ozu, um filme sobre relações familiares, recortadas em perfeitos planos frontais, quase todos rasteirinhos (os célebres tatami shots), correspondendo nitidamente à escala japonesa, numa espécie de Modulor cinematográfico, aperfeiçoado e localizado.

Os planos são tão bonitos que doem. São reverências consecutivas e recíprocas. De lá para cá, de cá para lá. Quase todos rodados em interiores, transportam-nos de tal maneira para o modo de estar/habitar japonês que chegamos a casa, e queremos repetir o gesto, abraçar o ritual, descalçar os tamancos geta e calçar imediatamente aquelas confortáveis meias que separam o dedo grande de todos os outros (e isso é design). Coloridos, são espampanantes na sua singeleza. Não há travellings, só planos fixos, estáticos, onde os personagens se movem em coreografias minimais, desenhando diagonais, ou linhas horizontais cortando a verticalidade imposta (como nos planos de corredor, leitmotif em Ozu, com os personagens cruzando, em filinha, o fundo, ou nas cenas de exterior, onde os actores aparecem enquadrados no espartilho das casas da vizinhança ou na grelha de bares duvidosos).

Mas lá fora o Japão respira. Nos planos intercalados de edifícios modernos, na roupa estendida ao sol, nas torres eléctricas. É de um país que nos fala Bom Dia, um Japão que se moderniza/americaniza e ao mesmo tempo resiste. É assim o cinema de Ozu, implacavelmente moderno e ao mesmo tempo resistente.

Como Tati, que me apareceu tantas vezes neste filme, como uma sombra desconhecida (ter-se-ão cruzado, Tati e Ozu?) e grande. O que é Playtime senão um filme sobre a inadaptação aos tempos modernos? De onde vêm aquelas flatulências que se libertam em Bom Dia, ventosidades impuros de um homem que trabalha para a companhia de gás? São as mesmas que se repetem nos gags sonoros de Playtime (desta vez são os móveis que se descuidam)?

Como Tati, Ozu é um albatroz inadaptado aos tempos modernos. As suas asas arrastam-se, e no entanto voam.

A televisão que as crias reivindicam é a commodity no centro do filme (há outras, como a máquina de lavar que alimenta as intrigas das vizinhas). A commodity é de facto uma comodidade, e como tal instaura o comodismo. Ou a revolução (it will be televised). É por ela, que, seguindo à letra a reprimenda do pai, os meninos (que pensam demais, e por conseguinte falam demais também) calam a boca, entrando num inquebrável voto de silêncio (mais uma ponte para o Japão lá fora. O silêncio traz-nos o eco de uma greve de fome).

Mas o que nos mostra Bom Dia não é apenas que os adultos falam demais, e comunicam (ou incomunicam) com uma série de palavras vãs, que não querem dizer rigorosamente nada (como Bom dia, o título do filme). O filme mostra-nos como as palavras às vezes são o caminho mais curto para a incomunicabilidade, e como o silêncio é de ouro. Não é por acaso que duas personagens que o destino se encarrega de cruzar, desperdiçam a oportunidade do encontro e se limitam a tecer comentários sobre o tempo, enquanto as nuvens, fora de campo, avançam sobre o seu olhar esvaziado. Não é por acaso que, enquanto os filhos amuam convictamente no quarto, o resto da família, sem televisão, permanece sabiamente indiferente, cada um fazendo a sua coisa – lendo – depois do jantar, enquanto o bule fervilha, e a casa desliza, como os shoji japoneses, para um abençoado silêncio. Às vezes, também queremos desligar as nossas crias, ou que sigam o exemplo das crianças de Ozu e se abstenham voluntariamente de falar por uns momentos.

(Há uns anos que aboli a televisão em casa. Não sei se as minhas crias serão mais felizes, mas que tem sido um sossego, lá isso tem. Entretanto, mudámos de casa e precisamos de Net. Como é difícil instalar Net de qualidade sem telefone e televisão avec (as commodities foram substituídas por “pacotes”, muito mais sofisticados e que aparentemente não se podem desmembrar), ponderei, reflecti, e fiz um pacto com os meus filhos concordando que poderíamos recuperar a televisão, embora com ela viesse, em attachment, um daqueles aparelhos antiquados – despertador de cozinha – para regular as horas que passam à frente da estupidificante caixinha. Passaram 15 dias. Três semanas? E depois de muitas desavenças, sistemas informáticos obtusos, activações, desactivações, “derivados” e outros derivados, o rol de queixas com a operadora (a de todos nós) já vai longo, mesmo antes de o contrato ter começado (digo eu). E televisão, nem vê-la. Deve ser o meu Karma. Continuamos por isso na paz dos Deuses, sem ondas hertzianas, à espera da consumação do milagre da visita do cable guy (que já esteve agendada duas vezes, embora aparentemente apenas na minha cabeça). E pergunto-me: não será melhor abortar a criatura, enquanto é tempo, antes que o rato pára um elefante?)

(O Nimas, que é uma espécie de angelika film center à Lisboa, tem a gentileza de nos apresentar estes dias, um ciclo dedicado ao cineasta japonês Yasujiro Ozu. Parece que se prolonga em Agosto e é imperdível. Na sua estética Zen, Ozu pode bem ser o mais japonês dos cineastas japoneses, mas, para o mal e para o bem, pode ser que seja também o mais ocidental de todos eles.)

(in english below)

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OZU

There is a little tin that permeates Ozu’s film Good Morning (1959). The word “peace.” is written on it. It warns us that we are in post-war Japan. And that post-war in Japan was also written in Western characters.

As much as we delight in the chubby face of one of the children who star in the movie – the youngest of two brothers who come into conflict with their parents, and take a vow of silence, demanding to have television at home – (and the way he says “Sayonara”, followed by “I Love You”) this film is not about children, nor – only – about the look that children have on the world of adults. With all the rebellion and candor which characterizes the “japanese boys” they are not quite an Antoine Doinel of the Rising Sun.

Besides being a movie about Japan after Hiroshima (and Hiroshima is there, and not only in the redemptive tin) Good Morning is, like many movies by Ozu, a film about family relationships, shot in perfect frontal, “crawling” shots (the famous tatami shots), clearly conveying the Japanese scale, a kind of cinematic Modulor, perfect and located.

The plans are so beautiful that they hurt. They are consecutive, reciprocal reverences. From there to here, from here to there. There are almost only interior shots, taking us to the Japanese way of life / dwell in such a way that, when I arrived home, I wanted to repeat the gesture, embrace the ritual, put off the geta sabots and immediately put on those comfortable socks that separate the big toe from all the others (and that is design). Colored, they are flamboyant in their simplicity. No traveling shots, only fixed, static shots where characters move in minimal choreographies, drawing diagonals, or horizontal lines cutting the imposed verticality (as in the corridor shots, another leitmotif in Ozu, with the characters crossing in a perfect row, in the background, or in the exterior scenes where the actors appear framed by the houses in the neighborhood or the grid of dubious bars).

But outside, Japan is breathing. In interspersed shots of modern buildings, clothes drying under the sun, electrical towers. It is about a country that Good Day speaks about, a Japan that is going through modernization/ Americanization and simultaneously resists. So is the cinema of Ozu, relentlessly modern and rebellious at the same time.

Just like Tati, who appeared to me so many times in this movie, as an unknown, generous shade (did they ever cross, Tati and Ozu?). What is Playtime but a film about the unsuitability to modern times? Where do they come from, those gases in Good Morning, impure vapors passed by a man who conveniently works for the gas company? Are they the same as the repeating sound gags in Playtime (although in the latter it is the furniture, not men, that expels wind)?

Like Tati, Ozu is a misfit, an albatross of modern times. His wings drag, and yet he flies.

The TV set that the brats claim is the commodity in the center of the film (there are others, such as the washing machine which feeds the intrigues of the neighbors). The commodity is in fact very comfortable, and as such establishes indolence. Or the revolution (it will be televised). It is in the name of this commodity that, following their father’s reprimand, the boys (who think too much, and therefore talk too much) shut up, entering an unbreakable vow of silence (which speaks to us about Japan out there. Silence brings the echo of a hunger strike).

But what Good Morning ultimately shows is that it is not just adults who talk too much, and communicate (or miscommunicate) using a series of empty words which mean nothing at all (like Good Morning, the film’s title). The film tells us how words are sometimes the shortest path to the inability to communicate, and how silence is golden. It is no coincidence that two characters whose paths are crossed by fate, waste the opportunity of the encounter and limit themselves to commenting on the weather, as the clouds, offscreen, advance above their deflated gaze. It is no coincidence that while the children sulk in the room, the rest of the family, without television, remains wisely indifferent, each one doing their own thing – reading – after dinner, while the tea pot simmers, and the house slides, as Japanese shoji do, towards a blessed silence. Sometimes, we also wish we could turn off our offspring, or have them follow the example of the children of Ozu and refrain voluntarily from speaking for a few moments.

(A few years ago we abolished television at home. I do not know if my kids are happier, but it has been tranquil, since then, oh yes. We recently moved and we need to have internet. How difficult to install good quality internet without the telephone and television avec (commodities have been replaced by much more sophisticated “packages” which apparently cannot be dismembered). So I considered, reflected, and made a pact with my children agreeing that we could recover the television, although it had to come with, in attachment, one of those old fashioned appliances – a kitchen alarm – in order to regulate the hours they spend in front of the stultifying box. 15 days – three weeks? – have gone by and after many disagreements, obtuse systems, activations, deactivations, “derivatives” and the likes, the list of complaints to the operator is never ending, even before the contract has even began (I believe). It must be my Karma. So we go on with our lives in the peace of Gods, waiting for the consummation of the miracle of the visit of the cable guy (which has been scheduled twice, although apparently only in my head). And I wonder: is it not better to abort the creature, while we can, before the mouse gives birth to an elephant?)

(Nimas, which is a kind of angelika film center but in Lisbon, has been kind enough to present us these days with a cycle dedicated to Japanese filmmaker Yasujiro Ozu. It will be extended during August and is an absolute must see. With its Zen aesthetics, Ozu may well be the most Japanese of Japanese filmmakers. Like it or not, he may also be the most western of them all.)

 

 

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