Fartura

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No “Público” de ontem Miguel Esteves Cardoso escreve sobre a gula que amiúde o toma, levando-o a ler, em uma ou duas semanas, a obra inteira de um escritor que acaba de descobrir. Fica de tal maneira tomado pela obra inaugural (não necessariamente a primeira que o autor escreveu, mas em todo o caso a primeira que MEC leu) que desata a ler, como um louco, tudo o que esse escritor produziu, de enfiada. (Não deixa respirar os livros, e todos sabemos como é importante a pausa, o recuo, para quem escreve como para quem lê).

A avidez depressa se transforma em “relutância” e o encanto descamba em desilusão. Rectifica, então, MEC, revendo as suas deliciosas listas de recomendações, invertendo os lugares no pódio, e muitas vezes banindo, desse mesmo pódio, algumas obras que entretanto lhe parecem banais.

Vem tudo isto a propósito destes dias de verão, de ninho vazio, em que aproveito para trabalhar e ler sem interrupções, e do meu próprio encanto com Paulo Varela Gomes, que só não é um “acontecimento” na literatura portuguesa porque não aterrou de paraquedas. Já estávamos à espera. PVG é um historiador e cronista respeitado que agora emerge, finalmente, como escritor. Tenho as minhas dúvidas sobre se PVG será mesmo um escritor, essa figura distante e romântica que preferimos não conhecer porque ao tocá-la estaremos de certo a arriscar transformar, prematuramente, os seus livros em pó. Mas que escreve como a glória, lá isso escreve.

O respeitinho é muito bonito, ensinou-me há muitos anos a minha tia R., e por isso poupo-me, e poupo-vos, a apreciações profundas sobre a sua obra. Comecei por ler “Hotel”, na altura certa da minha vida por muitas razões que aqui não vêm a caso, e depois li “O verão de 2012”. Por estes dias, deleito-me com “Ouro e Cinza”, um livro que compraria sempre, nem que fosse só pela capa (está aí em cima, e é sedutora, muito mais que qualquer t-shirt ou leggings com animal prints)

Não tenho nenhumas reticências, quaisquer rectificações. Ler os livros por esta ordem é mesmo o melhor que temos a fazer. Rapidamente. “Hotel” é magnífico, “poderoso”, como PVG gosta de escrever a propósito das páginas dos outros. “O verão de 2012” uma alegoria feliz sobre os tristes tempos que vivemos, o fim do mundo e o fim de um homem. E “Ouro e Cinza” um conjunto de crónicas agrupadas segundo determinadas afinidades electivas , que podemos ou não descobrir (é esse o desafio), cheio de histórias, e história, e bichos, e homens, e enfim, vão ler.

Como acontece com muitos escritores, as crónicas, maravilhosas, dão-nos preciosas pistas sobre a ficção. O cronista vai descascando a pele do escritor que está por trás, ou à frente, dependendo da ordem cronológica das leituras. Aparecerá o homem? Não sei. Interessa pouco. O que interessa é que ao ler “Ouro e Cinza” descobrimos a arquitectura da ficção, as delicadas pontes que ligam o que se escreve, como escritor, ao que se viveu, como homem. É assim que os corvos se transformam em pardais, e que reencontramos Lacerda, um réptil gregário, que salta do mundo dos vivos para o mundo dos mortos vivos ou vivos mortos, das páginas de um livro.

E é assim que vemos frases inteiras – formulações- ressoarem de umas páginas para outras, de uns livros para outros, tecendo fios milagrosos e apurados (como quando diz que um homem que não ama os outros homens pode não amar animais, mas um homem que não ama os animais não pode amar os homens)

PVG não precisa de rectificações. É praticamente imaculado, mesmo, e talvez sobretudo, quando não estamos de acordo com ele. Desencantos tenho outros, ou farturas, ou enjoos, como o caso de Jonathan Franzen, outro ornitófilo sem piedade, de quem me empanturrei noutro verão qualquer.

Pode ser que passado o fastio, lá regresse.

De MEC não me farto. Não dá . “A vida, honestamente vivida, é uma série ora miserável ora eufórica de rectificações desiludidas e descobertas. Aquilo que fica escrito – e é sentido e pensado – no dia seguinte é desmentido e disparatado. Ser honesto não é só corrigir: é continuar a falar”.

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