Clarice e os bichos

 

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Era uma vez uma menina que nasceu em Chechelnyk, na Ucrânia, e foi viver com os pais para o Brasil, para fugir à guerra. Quando teve idade, foi para escola e aprendeu a ler e a escrever. (Em brasileiro, mãe? Não em português, mas do Brasil). Depois começou a escrever, a escrever, e quando cresceu foi escritora. Jornalista e escritora. Depois casou-se com um diplomata e foram viver para Itália. Depois teve dois filhos. E depois voltou para o Brasil. Ela chamava-se Clarice.

Tudo isto conto a S., já de luz apagada, cabeça contra cabeça, em conchinha, depois de lhe ler as primeiras páginas de “A Mulher que Matou os Peixes”, de Clarice Lispector. Ainda estamos no princípio, e não é porque o livro seja longo. É porque é bom.

Clarice Lispector escreveu-o em 1968, para os seus filhos. As mães vidradas em Clarice lêem-no agora, para os seus filhos. Se Clarice não tivesse escrito este livro, não seria nada de especial, atrevo-me a dizer (as ilustrações não ajudam). Acontece que foi Clarice. Acontece que ela está lá. E fala através do livro. Não escreve, fala. Confessa-se, pede perdão, e faz perguntas, sim, faz perguntas às crianças. E o melhor? As crianças respondem-lhe. Clarice diz que se chama Clarice e pede ao “leitor” (que não lê ainda, sou eu que leio) para lhe dizer o seu nome. E ele diz. Primeiro em voz alta, depois baixinho, como ela pediu. No livro.

S., que só vagamente acredita no Pai Natal, acredita em Clarice.

Ora tudo isto não tem nada de extraordinário. E não tendo nada de extraordinário, é uma maravilha. S. ouviu com toda a atenção as palavras de Clarice, A Mulher que Matou os Peixes. E não teve medo dela. Como se ela estivesse viva, a contar-lhe a história dos desaventurados peixinhos, vermelhinhos, que morreram porque não lhes deu de comer.

Clarice está lá, em todas as frases, em todas as pausas, nas baratas e nos gatos (só não vimos cigarros). Em todos os deliciosos “horrivelzinho” onde descarna toda a sua doçura, a sua maldade meiga e humana. Só Clarice para escrever um livro para crianças com este título, e ainda assim levá-los ternamente para os braços de Morfeu.

Já tinha adormecido as minhas crias com O Lustre, lendo-lhes na cama excertos desse texto límpido e perfeito. Embalados pela voz de Clarice, dormiam em paz. Agora será o mesmo, mas entendendo o que lhes leio. Não apenas as palavras, a poesia. O sentido. Talvez vão sonhar com ratos e baratas. Mas baratas boazinhas. As de Clarice.

(o livro A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector, está editado em Portugal pela Relógio d’Água).IMG_4447

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