Fuso

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Merce Cunningham e uma mantinha. Que mais se pode pedir? Movimento, imagem em movimento, e um cenário esplendoroso: o jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Apesar de Setembro ser o novo Agosto, a noite estava fresquinha. A plateia refastelada, aconchegada em cadeiras “Morte em Veneza”, dentadinhas em pastéis de nata, assistia a mais uma sessão do FUSO, Anual de Vídeo Arte Internacional de Lisboa, programada por Lori Zippay, da nova-iorquina Electronic Arts Remix.

O programa era de luxo. Começou com uma cerejinha pequenina, na base do bolo, chamada Binocular Menagerie (2014) um filme de Leslie Thornton, criado para uma exibição pública em 37 ecrãs de Time Square, e que aqui, hélas, vimos só num. Bastou. Caleidoscópico, ressonante e dançante, o filme foi a introdução perfeita para o prato forte que se seguiu. Um amuse-bouche abissal.

Depois, entrou em cena Merce Cunningham e a sua troupe, num filme realizado por Richard Moore e com banda sonora do príncipe da troupe: John Cage (e David Tudor e Gordon Mumma). O filme, de 1968 (não me canso de dizer que este é um belo ano), foi produzido para uma televisão pública (!) de São Francisco e esteve perdido durante anos. Graças ao cosmos, que também é uma estrela que dança, e não necessariamente caótica, encontraram uma cópia num velho celeiro no norte do estado de Nova Iorque (o celeiro era de uma das pessoas envolvidas na montagem do filme). o filme foi restaurado e o resto já se sabe.

Cunningham coreografou a sua dança – que é mais, muito mais que isso – para um lugar específico: a praça Ghirardelli, em São Francisco, um espaço industrial devoluto transformado em zona comercial. Richard Moore pegou nas imagens e deu-lhes a volta de tal maneira que acabamos extenuados, levemente extenuados, quase sem fôlego, literalmente envolvidos no movimento da dança, e do filme, e dos dois, que disso se trata. “O filme pronto irá lidar não tanto com a dança em sentido estrito, mas com vários movimentos, barcos em movimentos, as pessoas a andar e, claro, grupos de dança” disse Cunningham.

Sobrepostas, assemblées (o filme chama-se Assemblage), fragmentadas e coladas de novo na inusitada transparência colorida, as imagens não se sucedem, entrelaçam-se para deixar ver algo profundamente novo. Dançam com a dança. Assemblage é belíssimo, estonteante, de tal maneira que baralha o próprio tempo, e cinco minutos podem durar uma hora, e uma hora pode parecer cinco minutos (o filme tem 58). Isto, sem esquecer a banda sonora (que é de facto outra banda, e esse é o objectivo) e todos os pormenores, como as maravilhosas silhuetas iniciais, que me fizeram pensar em Lourdes Castro, mesmo sabendo que silhuetas não são sombras.

Este cinema, tão “moderno”, afinal é de outros tempos, de um tempo muito early, onde a imagem em movimento estava espantosamente próxima das ilusões. As boas, que também existem.

Quando dizem que não se passa nada em Lisboa: passa. Passa-se tudo o que quisermos. Basta abrir a pestana, refastelar-se numa cadeira, com uma mantinha, e ver Merce Cunningham a brilhar.

 

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