O fim do mundo

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carta_celeste

– Mãe, onde é o fim do mundo? – dispara-me S. vindo do nada, vindo do azul, enquanto descemos a rua depois de uma inglória saída matinal à procura do jornal de domingo.

(sim, ainda compramos. E sim, há bairros no centro de Lisboa onde não há um quiosque aberto no dia do Senhor)

O fim do mundo, o fim do mundo é onde nós quisermos. Às vezes parece estar bem perto (como este trovão que acaba de rebentar), mas isso é só um tempo. E S. está à procura de um lugar.

Então resolvo explicar-lhe que a terra é redonda, assim uma esfera, e como tal quando parece que está a acabar, eis que começa de novo. Sendo finita, no entanto. Hmmm. Não está totalmente convencido. Tem de haver um fim. E quer saber onde está.

Passo então para outra táctica: desviar a atenção. Para lá chegar. Falo-lhe do Cabo das Tormentas, aka Cabo da Boa Esperança, e conto-lhe a história do gigante Adamastor, e de como os marinheiros achavam que ali acabava o mundo, mas afinal não, porque o cabo foi dobrado e depois o Vasco da Gama lá chegou à Índia, dez anos depois. S. está muito mais tranquilo. Estranhamente, a figura do “monstro marinho” (as palavras são dele) sossega-o, e finalmente há uma explicação: são tudo histórias, na cabeça dos homens, e o fim do mundo não existe mesmo.

Maiores que estes mistérios, no fim de contas terrenos, só mesmo os mistérios do céu. À noite, pus S. a olhar para as estrelas, como faziam os marinheiros, nesta carta celeste, que pendurei no quarto deles há uns tempos (é maravilhosa e é da Serrote). Ainda não me fez nenhuma pergunta. Estará a pensar.

THE END OF THE WORLD

Mom, where’s the end of the world? – S. shoots at me out of nowhere, out of the blue, as we go down the street after an inglorious morning walk looking for the Sunday paper (Yes, we still buy it. And yes, there are neighborhoods in central Lisbon where there’s not a single kiosk open on the day of the Lord).

The end of the world, the end of the world is wherever we want it to be. Sometimes it seems to be pretty close (like this thunder that just burst), but this is only a matter of time. And S. is looking for a place. So I decide to explain to him that the earth is round, like a sphere , and as such as it appears to be ending, it starts again. Being finite, however. Hmmm. He is not entirely convinced. There must be an end. And he wants to know where it is. 

So I move to another tactic: divert attention. Just to get there . I start to speak about the Cape Bojador , aka Cape of Good Hope, and tell him the story of the giant Adamastor , and how the sailors thought the cape was the end of the world, but then it was not, because they sailed beyond it and Vasco da Gama reached India ten years later.

S. is much more quiet. Oddly, the figure of Adamastor, the “sea monster ” (the words are his) seems to reassure him , and finally there is an explanation: these are all stories, stories made by men, and the end of the world does not exist at all.

Larger than these mysteries, earthly mysteries at the end of the day, only the mysteries of the heavens. At night, I put S. staring at the stars, as the sailors did, in this sky chart that hangs in their bedroom (it’s wonderful and it’s by Serrote ) . He still hasn’t asked me any questions. He must be thinking.

 

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