Coming of Age

icon-08

021

Nos anos 80, quando a Avenida de Roma era cool e a loja da Benetton o paraíso da betalhada pátria, não havia betinho que se prezasse que não quisesse ter o slogan-feito-marca “United Colors” escarrapachado no peito, ou em versão mais subtil mas igualmente contundente, o providencial logo do pontinho de malha estilizado, pendurado, como uma medalha, na camisola de râguebi.

Aquele símbolozinho amoroso, redondinho e espevitado ao mesmo tempo, dizia-nos, muito antes da Heineken, e muito depois de Piaf, que a vida em verde é que era. Para os betinhos da Benetton, a iniciação ao mundo colorido e universal fazia-se através da linha zerododici, que, com roupa desenhada para crias dos 0 aos 12, estabelecia as balizas da infância, a preto e branco e a cores. A zerododici era assim, uma espécie de ritual de iniciação ao mundo B, que ainda hoje se mantém, embora muito mais diluído no mainstream e à sombra de marcas de nicho, as do algodão biológico.

Quando tudo parecia rolar, chega o meu pequeno S. para nos baralhar o esquema.  Na sua cabecinha, as balizas da infância são um bocadinho diferentes das imaginadas por Toscani ou outro inventor da etiqueta mágica. Para o meu filho, estas balizas são mais estreitas: situam-se realmente entre os 4  e os 14 anos, sendo que para ele 4 é “extremamente pequeno” e 14 “extremamente adulto”. Ou seja, na cabeça do meu filho de seis anos, a esplendorosa odisseia do “coming of age” processa-se por volta dos treze (ou “treuze”, em linguagem Avenida de Roma). Assim, tudo espremidinho no refrescante sumo de laranja dos verdes anos, fica tudo mais fácil. E rápido.

Quando se quer referir a um acontecimento distante, nebuloso, que coloca algures no limbo da sua primeira infância, S. atesta, sem pestanejar :”Isso era quando eu tinha 4 anos, não é mãe?”. E isto independentemente de estarmos a falar do dia em que deixou de usar fraldas (2 anos?)  ou do momento em que aprendeu a andar de bina sem rodinhas (4 anos?). Para ele, tudo é tão recuado como os tempos de Viriato. Da mesma maneira, quando lhe acontece projectar-se no futuro, S. não tem uma dúvida: vê-se adulto aos 14. Barba rija e carta de condução na mão. “Mãe, quando eu for grande já posso ir sozinho de autocarro para a escola?” . Sim, filho. “Para aí aos 14, não é mãe?”. Sim, filho. “E também posso guiar o teu carro mãe?”. Não, filho.

Este zeroquattordici de S. apaixona-me. É maravilhosa a profunda relatividade do tempo. À medida que me aproximo das 4 décadas de vida é a essa relatividade que me refiro quando, como Mallu Magalhães, digo “Eu tou ficando velha”. Velha e Louca. Graças a Deus.

(as imagens são logicamente de campanhas de Oliviero Toscani para a Benetton)

benetton_02

Anúncios

Respond to Coming of Age

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s