A velha senhora

 

icon_10IMG-20141016-01058A senhora aparece curvada. Os cabelos que normalmente penteia ao vento estão singularmente domados.

São uma bonita cabeleira acinzentada, enquadrando perfeitamente um rosto pequenino, pequenino e vivo, onde dois olhos azuis brilham e piscam como o mar.

A senhora leva um saco ao ombro, sandálias alemãs e por debaixo destas, grossas meias de lã.

Está numa exposição, a senhora. Não parece uma pedinte. Parece uma senhora. Que é.

As mãos são ossudas e finas. A pele desliza-lhes com soltura, apoiada nos ossos, entrevêem-se as veias, saltam as sardas caladas.

A senhora é uma artista e vive numa ilha rodeada de gatos, e bolbos escondidos e plantas magníficas, e tanto mar e ar tão vasto que nos corta a respiração.

A senhora, esta precisa senhora pequenina e curvada como um galho que resiste e nunca se quebra, é um monumento.

Pequenino monumento de luz e de sombra, irrequieta e estática. Como uma ilha.

Imponente e pontual, como uma ilha.

Uma ilha também é um contorno. Um ponto e um limite que se desenha no mar.

Quanto maior é o que conhecemos, maiores são as fronteiras do desconhecido.

Maiores as fronteiras sólidas líquidas, maior o mar de inesperado à nossa volta.

Daquela ilha.

Os limites ditam os limites, e não são.

(impressões recolhidas depois de uma visita à exposição do Dacosta, no CAM, aí em cima)

THE OLD LADY

The lady appears curved. Her hair, that the wind usually combs, is remarkably tamed. It’s beautiful gray hair, perfectly framing a tiny, tiny, lively face, where two blue eyes shimmer and sparkle like the sea. A lady carrying a bag over her shoulder, German sandals and underneath these, thick wool socks . She’s at an exhibition, the lady . She doesn’t look like a beggar. She looks like a lady. Which she is.

The hands are bony and thin. The skin slides over them with ease, supported by the bones, a glimpse of the veins, silent freckles popping out . She is an artist and she lives on an island surrounded by cats and hidden bulbs and magnificent plants, and both air and sea so vast they cut your breath.

The lady, this precise lady bent like a little twig that resists and never breaks, she is a monument . A tiny monument of light and shadow, unsettled and static. Like an island. Imposing and punctual, like an island.

An island is also a boundary.

A point and a boundary that is drawn in the sea.

The more we know, the greater the boundaries of the unknown . The greater the liquid solid boundaries, the greater the unexpected sea around us. Around that island.

The limits dictate the limits, and they’re not

( collected impressions after a visit to the Dacosta exhibition at CAM, Lisbon, up there )

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