Cheia de Graça

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“Come back” gritou alguém do público, pedindo mais uma canção que não estava no alinhamento. “Come back”, gritou o escuro. E a artista respondeu. “I haven’t left yet!”.

Foi este tom de doce gozinho, pronunciado num imperturbável sotaque novaiorquino  (adquirido, ela nasceu do outro lado do rio), que percorreu o concerto de Sharon Van Etten sábado passado no Coliseu.

Diz quem foi a quase todas que o concerto de Sharon Van Etten foi das melhores coisas que se passaram este ano no Vodafone Mexefest. Eu não fui a quase nenhuma, mas bastava-me este para vir de barriga cheia.

Não é só por causa da telúrica e intimista Your Love is Killing Me que Sharon Van Etten nos comove e arrebata.  O último disco “Are We There” tem várias camadas e é para ouvir e sentir com respeitinho. Como nos dizem aqui.

O concerto, que tomou alguns temas mais antigos (e também um inédito, que será b-sider para o ano), esteve muito próximo do disco, o que na maior parte dos casos não chega. Aqui, chegou e sobrou. Só que teve mais. Sharon teve muita graça porque ela é cheia de Graça.

Quando um jovenzinho sentado ao meu lado lhe gritou “Sharon, I wanna have your babies” ela penteou a guitarra com os dedos e questionou “Is that scientifically possible?”. Também elogiou a sala (cómo no?) e mostrou-se incrédula quando percebeu que o público português conhecia as suas músicas todas (temos a fama e temos o proveito) e ainda mais incrédula quando realizou que o maluquinho encostado às grades tinha “Sharon Van Etten” escrito na cara “I can’t believe you have my name written on your face”. E nós acreditámos que ela não acreditava.

Nunca estive em Austin, mas parece que o Mexefest é o nosso South by Southwest. Não temos filmes, mas temos concertos nos autocarros. Não temos cowboys mas temos desfiladeiros cheios de reformados genuínos fazendo filas para ver a última revista à portuguesa. Temos salas históricas, como o Atheneu, e salas mágicas, como a Casa do Alentejo. Temos kizomba num palácio setecentista. Temos outros sons nas igrejas.

Ou seja, o Mexe é nosso. Não podia acontecer em mais lado nenhum. E tem imensas vantagens, como pôr uma geração de cotas em potência num frenesim desvairado a andar de um lado para o outro como se tivéssemos 20 anos outra vez.

(Estava a intelligentsia Lisboeta em peso. Uma certa intelligentsia. Colunistas, não colunáveis. E os críticos do costume, como o senhor da cabeleira branca sentado mesmo atrás de mim, a fazer um esforço enorme para manter as distâncias e não se emocionar. Imperturbável, só que não como Sharon).

Claro que nem tudo são rosas. Na Casa do Alentejo, assisti a 10 minutos de Bristol e retirei-me, entre a depressão profunda e uma irreprimível vontade de rir. Mas houve surpresas boas. Em Saint Louis (linda, linda, linda), estive sentada no chão a ouvir Johanna Glaza e não me arrependi. A melhor descoberta foi mesmo Sensible Soccers, portugueses até à medula apesar de não parecerem (you are not alone, You Can’t Win, Charlie Brown).

Agora, podemos hibernar em sossego até 28 de Janeiro, quando a Banda do Mar volta a juntar-se em Lisboa, no Tivoli.

(a foto de abertura, com Miss Van Etten, é do Miguel Lobo. Cá em baixo está o tiroliroló e é meu. No Palácio Foz, nós, os escravos, fizemos a festa)

FULL OF GRACE

“Come back” someone shouted from the audience, asking for another song that wasn’t on the list. “Come back”, the darkness cried. And the artist responded. “I haven’t left yet!”

It was this sweet mockery tone, pronounced in an undisturbed New York accent (imported, she was born on the other side of the river), which traversed  Sharon Van Etten’s concert last Saturday at the Coliseu.

Those who were at almost all the concerts say that Sharon Van Etten’s performance was one of the best at this year’s Vodafone Mexefest. I only saw a few, but this one would be enough to keep me satisfied.

It’s not only because of the telluric and visceral Your Love is Killing Me that Sharon Van Etten moves us.  Her latest record, “Are We There” has several layers and should be heard and felt respectfully. As they say in here.

The concert, where she played some older songs (and also a brand new one, which she promised will be a b-sider next year) was almost too close to the record, which in most cases isn’t enough. Well, in this case, it was more than enough. But there was more. Sharon was very funny (graceful) because She is Full of Grace.

When a young man, sitting next to me, shouted at her:”Sharon, I wanna have your babies” she combed the guitar with her fingers and asked “Is that scientifically possible?”.  She also praised the venue (cómo no?) and was incredulous when she realized that the portuguese public knew all her songs (after all, we have a reputation to keep) and even more incredulous when she realized that the nutcase standing against the bars had “Sharon Van Etten” written on his face.”I can’t believe you have my name written on your face”. And we believed that she couldn’t believe.

I’ve never been to Austin, but it seems that Mexefest is our South by Southwest. We don’t have cinema, but we have concerts in buses. We don’t have cowboys, but we have canyons filled with genuine retired people queuing to see the latest “revista”, Portuguese style. We have historical venues, such as the Atheneu, and magical venues, such as the Casa do Alentejo. We have kizomba in an eighteen-century palace. We have alternative sounds in churches.

To put it simply, Mexefest is truly ours. It couldn’t happen anywhere else in the world. And it has many hidden benefits, such as putting a generation of old-people-to-be in frantic frenzy, moving from one place to the next as if we were 20 again.

(The Lisbon intelligentsia was heavily represented . A certain intelligentsia. Columnists, not celebrities. And the usual critics, like the white-haired fellow sitting right behind me, making a huge effort to keep the distances and not be moved. Undisturbed, just not like Sharon).

Of course, not all is rosy. At the Casa do Alentejo, I painfully watched 10 minutes of Bristol and walked away, my heart split between profound depression and an irrepressible urge to laugh. But there were good surprises. At the church of Saint Louis (linda, linda, linda), I sat on the floor listening to Johanna Glaza and didn’t regret it. The best surprise was really Sensible Soccers, portuguese to the bone although they do not seem so (you are not alone, You Can’t Win, Charlie Brown).

Now we can peacefully hibernate until January 28, when the Banda do Mar will come back to Lisbon, for a performance at the Tivoli.

(the opening shot, featuring Miss Van Etten, is by Miguel Lobo. The rest of the photos are mine. At the Palácio Foz, we, the slaves, made the party).

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