Visibilidade Reduzida

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A menina da caixa responde sem tirar os olhos do computador.

“Boa tarde, tem bilhetes para Banda do Mar?”

“Não, está esgotado”

“Bem sei que está esgotado o concerto de dia 28, mas o de dia 27 também?”

“Também. Só temos visibilidade reduzida.”

“Mas tem bilhetes ou não?”

“Sim. Mas só de visibilidade reduzida”

“Visibilidade reduzida?”

“Visibilidade reduzida.”

“Então não está esgotado.”

“Está, mas temos visibilidade reduzida.”

“E isso significa?”

“Que são bilhetes de onde não se vê muito bem o palco”

Breathe in, breathe out. Até aí o meu discernimento chega. Repasso na minha cabeça a quantidade de putativas cabeças entre mim e o palco. Tragédia. Devem ser muitas.

“Ok, então ainda há bilhetes, ou seja, não está esgotado, mas os bilhetes são de visibilidade reduzida, é isso?”

“Sim. Visibilidade reduzida”

“E isso significa?”

“Visibilidade reduzida”

Não avançamos. Claramente, a menina da caixa está tomada por um ataque de Sebastianismo profundo. Nevoeiro mental.

“Oiça, já percebi que não se vê bem. Mas estamos a falar de que lugares?”

“Lugares de onde não se vê bem o palco.”

Vou fazer um desenho. É isso. Talvez consiga desfazer a pescadinha. Será que a menina da caixa já ouviu falar de “galinheiro” (em Italiano diz-se “pombal”) ? Terá ido alguma vez à Ópera? Saberá o que é Ópera? Será que já percebeu que não estou à espera de um lugar na primeira fila? Só preciso de definir, espacialmente, os lugares. Arranco o plano da sala das mãos do companheiro de caixa da menina.

O companheiro de caixa é um génio. Muito mais colaborante. Aponta-me no papel os lugares disponíveis, dispersos, nas filas que sobram do balcão lateral. Oferece-me um sorriso.

Ah-haaaaaa. Então ainda há. São estes. Um aqui, outro ali. Levo. Não, espere, estão a ser vendidos neste momento. Então passa a um aqui, outro acolá. Levo.

Alívio. Tudo isto se passa numa inconveniente loja de conveniência cultural multinacionalista no centro de Lisboa. É um projecto piloto, um “modelo de loja” e de “experiência de compra” nunca antes testado. Feito à medida do nosso mercado e pioneiro no sector. Uma tanga. Um case-study. Pena que não prestem grande atenção aos recursos humanos.

Mas tout est bien qui finit bien. Os bilhetes já cá cantam. A Banda do Mar foi das melhores coisas que nos aconteceu, musicalmente, em 2014. Lisboa espera-vos. Com visibilidade reduzida. Todo o mar por navegar. O essencial é invisível aos olhos, já dizia o outro.

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