Birdman (do amor)

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Não é por acaso que nos créditos de abertura do novo filme de Alejandro González Iñárritu, Birdman, se acende, letra por letra, a palavra “amor”.

O amor, ou a insaciável necessidade que todos temos de ser amados, é o tema do filme, como é o tema de quase todos os filmes, afinal. Amados pelos pais, primeiro, depois pelos filhos, se os tivermos, pela pessoa que desejamos, pelo ex que perdemos, por aqueles que queremos, pelo público, pela crítica, pelos pares, pelos ímpares, por nós próprios. Amor.

E se o amor é a força que domina o mundo, não era preciso mais nada. Filmado quase inteiramente nos interiores de um teatro da Broadway, o filme tem tanto, mas tanto, que mal saímos da escuridão da sala de cinema, já o queremos outra vez, como a um amante suspenso e abandonado.

Olhemos por onde olhemos, o filme deixa-nos atarantados. Positivamente atarantados. Mas como uma esplendorosa meditação (sim, Michael Keaton levita, e derruba holofotes com o olhar), também nos deixa solidamente ancorados na beleza lúcida do aqui e agora. É o ego, estúpido!

Talvez seja o charme do formato play-within-the-film (também podia dizer-se peça-dentro-do-filme, mas em inglês soa melhor, sorry), talvez sejam as soberbas interpretações (Michael Keaton é genial. Edward Norton é genial. Emma Stone é genial), talvez seja o estonteante arrojo dos planos-sequência de Iñárritu, o ritmo louco do plano-música, ou o facto de esta ser uma das mais belas e autênticas homenagens a Nova Iorque no cinema.

Esqueçam Woody Allen. A sério. Este filme não é sobre Nova Iorque. Este filme é Nova Iorque.

E chegamos ao coração da grande maçã, numa das cenas mais bonitas do filme (a outra é mesmo no fim). Michael Keaton, em cuecas, a correr por Times Square no meio da populaça. É um pesadelo? Não, é uma libertação viral. É um pesadelo? Sim, o clássico “estou nu no meio da multidão” só que não tem nada de angústia. É catártico. Nos tempos que correm, somos uma celebridade. Temos milhares de likes. E o melhor é que estamo-nos nas tintas para tudo isso.

Como o seu compatriota Luis Buñuel, Iñárritu interessa-se por sonhos. Birdman é a passagem do pesadelo ao paraíso: primeiro atravessamos a praça pública de cuecas, depois, libertos, batemos asas e lançamo-nos a voar. É maravilhoso. Somos nós.

Muito mais poderia dizer-se de Birdman, mas o melhor é mesmo ir ver o filme. “A thing is one thing not what is said of that thing.”

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