Bibliófagos

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10438565_932572110087765_6089441779897831309_nAcho um tédio aquela boca dos literati pavoneantes que gostam de se gabar, não da lista de livros que têm para ler, mas dos livros que só não leram porque ainda não saíram. Aqueles Sebastiões do futuro que estão na calha das editoras ou nos jornais em pré-publicações quase secretas, com ares de allumeuse.

Claro que já cedi à tentação de comprar um livro antes de chegar às livrarias. Uma mulher, mesmo com príncipios, não é de ferro. E estar no pelotão da frente, para a bibliófaga que há em mim, às vezes sabe bem.

Mas essa é a excepção, não a regra. Até porque, mesmo para aquelas pessoas que têm uma biblioteca de 5000 volumes, há sempre um mundo para ler. E a maior parte do que interessa, diz quem sabe, já está publicado.

No outro dia, falando de um livro que lhe tinha ido parar às mãos, o meu sexagenário pai sentenciou “Nada que não se leia, mas não precisas de ler para nada”. Com o tempo, e sobretudo com a falta dele, aprendemos a ser selectivos. Com os livros, sobretudo, tornamo-nos extremamente exigentes.

Desde dos meus tempos de cinefille em Nova Iorque que tomei a decisão de ver sempre um filme até ao fim, mesmo que me parecesse muito mau, ou muito chato. Com os livros, passa-se o mesmo. Se pego nele, e o abro, e decido que o vou ler, estou feita. É para ir até ao fim. É um risco. Para me proteger, tento fazer a triagem antes de começar. Sei que se passar das primeiras páginas dificimente me liberto, e por isso leio algumas, na livraria, e geralmente percebo logo se é para mim ou não. Se é agora, mais tarde, ou nunca. Aqui, sou um bocadinho implicativa. Se houver uma coisa que me chateia, duas coisas que me chateiam, três ou quatro coisas que me chateiam, fecho-o delicadamente (às vezes solto um pffff, pelo meio) e pouso-o na mesa ou expositor. Como se nunca nos tivéssemos cruzado.

Acontece-me muitas vezes. Frequento bastante livrarias. Como aqueles taradinhos que se auto-prescrevem a proibição de entrar num casino, assim deveria eu estar proibida de entrar nesses antros de prazer.

Um dos meus jardins proibidos é a Nouvelle Libraire Française, ali na Luís Bivar. De cada vez que lá passo, tragédia. A última vez, trouxe um Guy Delisle debaixo do braço, qual baguette canadiana.

Cada visita é um paradoxo. Venho mais leve, reconfortada pela perspectiva de que em casa poderei embrenhar-me nas páginas, manchas, quadradinhos, belos desenhos, e partilhá-las com as crias. Ao mesmo tempo volto pesada, esmagada pelo tempo que me falta para as ler. Para equilibrar a coisa – não fosse o Universo preencher o que está vazio e fugir do que está cheio – o meu cartão de débito emagrece à mesma velocidade com que o saco de pano rebenta pelas costuras. Não quero nem pensar. Quero ler. Sou a bibliófaga de serviço.

Só que já não devoro livros. E não é por passar a vida à frente da televisão (o meu contacto com o aparelho resume-se aos abençoados ecos do Shin-Chan, ou do Regular Show, que se espalham pela casa). Mas já não devoro livros. Na realidade, quase nunca os devorei. Mastiguei-os, quando muito.

Agora, talvez por força da idade, que não perdoa, ou dos olhos, que começam a falhar, ou da madrasta da vidinha, sempre numa correria e quase sempre contra a corrente, limito-me a ruminá-los. Vou lendo, quando posso. Assim se acumulam, cá em casa. Pilhas de livros à espera de vez.

Lembro-me do drama que era para o meu pai, dar-se conta, ao acabar de ler um livro, todo o mundo que o esperava lá fora, bibliograficamente falando. O infinito feito de livros à espera de serem descobertos, e lidos, naquele encontro irrepetível que se produz de cada vez que lemos alguma coisa escrita por alguém. Lembro-me de como ficava atordoado pela consciência da sua insignificância e impotência perante aquele particular cosmos de folhas. Todos os livros que nunca lerei, os conhecidos e os desconhecidos.

Bem vistas as coisas, também na nossa relação com os livros se abre um universo virtualmente ilimitado de possibilidades. Tudo é potência, e isso é maravilhoso.

É só estarmos atentos. E ler.

(a ilustração aí em cima é © Wasted Rita.)

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One response to Bibliófagos

  1. Luís Afonso

    Resolvi deixar um comentário para saberes que leio o teu blog.

    Parece-me assim uma coisa bem feita, tájaver? Gosto da leitura. Tenho acompanhado.

    Já olhei foi aqui para baixo e percebi que tenho de deixar os meus dados. Não mandes spam que eu não compro nada.

    Beijinhos!

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