Ambição

icon-08IMG_6679Tenho por hábito abastecer o meu velho charuto de quatro rodas numa gasolineira perto de mim. Perdoem-me o castelhanismo, mas sempre achei muito mais romântico chamar as coisas pelos nomes: gasolineira é melhor que bomba. As bombas são como os chapéus. Há muitas.

Há algumas semanas, eu e o broto mais novo fomos para a fila. O dito posto de abastecimento tem quase sempre fila, mas nós não nos importamos de esperar. O sol aquece-nos, em coalhos de luz que atravessam os plátanos da avenida, e vale a pena a espera. Um tempo morto cheio de vida. Pela janela aberta, o senhor espreita e pergunta-nos o que vai ser. 2o euros 95 e um sorriso. Do lado de fora, a bomba a bombar, o senhor a olhar o céu e outro sorriso. Vamos pagar ao Multibanco no casinhoto e pergunta-nos se queremos factura. Não, muito obrigada, gosto muito do meu charuto e não preciso de Audis. E ali ficamos, enquanto a máquina cospe o papelinho entre barulhinhos sem graça, e o senhor solta mais uma boca, uma observação certeira sobre o estado das coisas, que não tem nada de piropo, e é por isso que lhe fica tão bem. “Este senhor é muito simpático” comento com  o broto, às voltas com o cinto no banco de trás. “Está sempre bem-disposto, de bem com a vida, viste S.? É por isso que a mãe vem aqui. A mãe e estas pessoas todas que estão à espera para pôr gasolina, vês S.? É porque o senhor é muito bem-disposto e assim apetece vir cá”. S. diz que sim com a cabeçorra. E ficamos por ali.

Passam-se os dias, e uma tarde vamos os dois pela rua, a rua das Embaixadas, não de mão dada, como às vezes fazemos, mas lado a lado, a contemplar, a curtir. S. observa a sucessão de bandeiras bulindo ao vento, mas já quase não lhes liga, estão lá sempre. A diferença é que hoje partilhamos o passeio com uma data de senhores engravatados que se dirigem, sem dúvida, a uma qualquer recepção.

– Mãe, estes senhores são presidentes?

– Não sei. Se calhar alguns são. São diplomatas, trabalham aqui nas embaixadas destes países. Devem vir a uma festa. Estás a perguntar isso porque têm gravata?

– Sim.

Fazemos uma pausa. As camélias que pendem do gradeamento do muro adjacente ao passeio rebentam de lindas. S. não fala, mas ainda pensa. O silêncio diz tudo.

– Gostavas de ser presidente, é?

– Não mãe, gostava de ser bem-disposto.

E acrescenta, sem tirar os olhos do chão, “como o senhor da gasolina”.

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