Penélopes

icon-09gur_catarinaPrefiro ser um quadro inacabado que uma tela emoldurada pendurada num museu que ninguém vê.

Bafiento, desimaginado, pior cenário só a parede de uma galeria quase nua e, no canto, um pontinho encarnado, possessivo e arrogante, a sinalizar a reserva. A posse.

A minha amiga G. mostrou-me as virtudes da mulher-projecto. Apesar de viver há vários anos com o homem que ama de paixão, e de ser por isso a mulher dele, nunca se casou. Amorosamente, a minha amiga refere-se à mãe do concubino (esta minha amiga é linda, inteligente, sensível, sexy e generosa) como o seu “projecto de sogra”. Assim, orgulhosamente junta com o homem que escolheu, ela é também um projecto de esposa (esponja), um projecto de nora, um projecto de prima, um projecto de neta. Demorei algum tempo a perceber a razão do seu estar-bem-com-a-vida. É simples. Ela é a mais bem resolvida mulher-projecto que conheço.

Quando achava que já tinha percebido tudo o que havia para perceber sobre o assunto, conheci uma pessoa que vive rodeada de projectos. São vários e variados e envolvem, em linhas gerais, manutenção e melhorias. São palpáveis. Plantas, rodas, muros. Coisas terrenas. Nada de leviandades insufladas, cheias de ar, castelos em nuvens de espuma. Isso é para meninos. Toda a sua vida é um projecto em polvorosa, uma inebriante e valiosa colecção de projectos. Não há uns melhores que outros, a todos se dedica com afinco, esbanjando calma, pondo o melhor de si em cada um, e de todos, parece-me, extraindo o prazer imenso que lhe dão, precisamente por serem isso, projectos e por estarem inconcluídos. Só assim se explica que se possa manter a magia daquilo que fazendo-se, não está feito ainda.

Claro que, argumentarão alguns, este ajuntador de projectos só trabalha neles sem nunca os acabar porque tem um medo terrível. Dos fins. Das conclusões. Dos princípios que se seguem. Tão perfeccionista, e platónico, que teme que o resultado acabado não seja mais que uma sombra, versão pálida e turva da perfeição que idealizou.

Então penso na incansável Penélope, que desfazia à noite o que tecia de dia, e vêm-me à cabeça tapetes. (Como esse, aí em cima, obra de Catarina Carreiras para a portuguesa GUR).

Penélope era uma manhosa. Boa manhosa, a Penélope. Também ela vivia num projecto inacabado, só que o seu tinha um fim: Ulisses.

E com estes descobrimentos me deleito na imagem da mulher-projecto, que se faz fazendo como o caminho caminhando, eternamente perfeita na sua incompletude, revelando, a cada toque no tear, a beleza suma das coisas inacabadas.

(os tapetes da GUR – tapetes de pernas para o ar, como o nome indica – merecem um post exclusivo. São muitos e bons. São portugueses, feitos à mão, e sim, vendem-se melhor lá fora. Quem não aguentar pode ir  à Dama Aflita, no Porto, ou à Fabrica Features em Lisboa. Eu pessoalmente também acho que são um não s’aguenta. Trazia já vários para casa, se pudesse. Mas ainda não pode ser. Ainda.)

Anúncios

Respond to Penélopes

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s