Mindfulness

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Há dias, ao passar absent mindedly pela Bulhosa, livraria que muito estimo, reparei que no Top dos livros de não-ficção (lado a lado com o novo Capital de Piketty, hélas) estava um livrinho sobre práticas de Mindfulness.  Já não me lembro do subtítulo, mas a ideia era “livre-se do seu stress (e do da sua família) fazendo estes desenhos relaxantes”. Desenhos para adultos. Livrinhos para colorir para gente a  caminhar para velho, ou mesmo à beira da senilidade.

Não tenho nada contra  desenhos para adultos (embora me pareça que ficam melhor na secção de BD, ou mesmo na categoria Milleriana de “screwing and smoking”), como também não tenho nada contra a ideia de mindfulness, nem, como é óbvio, contra a sua prática, que pelos vistos está muito na moda. Como diz a minha mãe, “Cada um Sabe de Si e Deus Sabe de Todos”. Ou como dizia um ex meu, passando o eufemismo, “Cada um Urina com a Sua” (sendo que a dele geralmente deixava gotas no tampo da retrete).

Tudo bem. Uma das vantagens da meditação (em si, bestialmente mindful) é precisamente a de nos ensinar a suspender o julgamento (sobre nós próprios, primeiro, e depois sobre os outros. Ou ao contrário. O que interessa é atirá-lo para trás das costas, ou despejá-lo numa expiração abdominal bem trabalhada.).

Mas daí a vender livrinhos ocos “como churros” (que é o mesmo que dizer “com fartura”) vai um passo gigante. O êxito estúpido deste tipo de livros (está no Top do Espesso, conferi, conferi) incomoda pouca gente, mas a mim incomoda-me imenso. Porque se imaginar uma data de adultos a desenhar e colorir como crianças não é infantilizá-los, já imaginar que esses adultos acham que vão resolver o seu stress de cada dia comprando um livrinho de doodles e zentangles, arrelia.

Assim de repente, vieram-me à cabeça várias maneiras de praticar mindfulness sem gastar um tusto, deixando o papel impresso para ocasiões mais solenes e proveitosas:

– fazer uma ratatouille com perfeitíssimos cubos de legumes, cortados a régua e esquadro, todos a tender para o mesmo tamanho e figura

– depenar uma perdiz

– desossar uma perdiz

– retirar amorosamente as ervas daninhas de um quadrado de relva

– contar atarefadas formiguinhas num carreiro sem nos perdermos na estonteante semelhança de umas com as outras

– despiolhar uma criança

– despiolhar uma criança enquanto esta esbraceja desassossegadamente porque a estamos a torturar

– apanhar conquilhas na maré-vaza, escarvando a areia com os pés em movimentos giratórios

– fazer uma paciência

– fazer uma paciência usando um baralho de cartas

– fazer uma análise shot-by-shot do Vale Abraão

– descascar favas

– desfiar bacalhau para um batalhão

– arrumar os livros por cores, tamanhos, autores, anos, editores, ou outro critério qualquer que nos sirva e pareça ajustado à nossa biblioteca

– tirar as grainhas das uvas para uma família de 9 filhos

– limpar as juntas de todos os azulejos da casa de banho com uma cotonete

– fazer o mesmo com os diminutos revestimentos em pastilha

São só algumas ideias. Quase todas facilmente praticáveis em casa. Sem riscos para a saúde. Servem apenas para mostrar que todos podemos ser incrivelmente mindful porque isso não é mais do que estar presente, inteiro, no momento. Estar atento, lúcido, aqui e agora e não ali e daqui-a-nada (depois ou antes, venha o diabo e escolha).

Claro que há técnicas que ajudam a aprimorar o processo. A meditação é uma delas. Há pessoas tão boas nisto que até conseguem meditar a ouvir a RFM. Os mandala dos hindus são outra técnica (e também envolvem desenhos, bem mais giros e ancestrais). A caligrafia japonesa, outra ainda. Imagino que a arte floral, os bonsai e a própria cerimónia do chá, também o sejam. Não sou etnógrafa, nem antropóloga, mas custa-me a crer que os índios da Amazónia, ou as tribos africanas, ou os aborígenes lá na sua ilha, não tenham, também, as suas particulares técnicas e práticas de mindfulness. Não me parece que abundem as livrarias entre lianas e coqueiros.

Alguns de nós precisam de livros, sim. Ainda bem. Mas para ser mindful, sê inteiro.

A pentear o cabelo do teu filho, a cortar o alho-francês, a esticar os lençois da cama, a ouvir os passarinhos a trinar tentando desenhar uma conversa, a olhar o mar, a luminosa copa de uma cerejeira, de baixo, ou o infinito num fio de olhos. Até, vejam lá, contemplando todos os detalhes da expressão bovina do EMELio de serviço.

Tudo maneiras de esvaziar a cabeça, enchendo-a.

(a imagem aí em cima é dos vegetais faux de Scholten & Baijings. Não são para cortar, mas são Zen e inspiram qualquer meditação sobre uma tábua de cozinha. Très Mindful. )

 

 

 

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