25 anos do Juicy Salif (coisa mais linda)

icon-120001_PSJS W_300dpi_1250pxlSlavoj Zizek chama MacGuffins aqueles objectos que atravessam os filmes de Hitchcock, e nos intrigam imenso, porque não fazemos a mais remota ideia para que servem ou o que estão lá a fazer. Reparem: só nós (e talvez Hitchcock, esse grande gozão manipulador) é que não sabemos o que é que os MacGuffins estão lá a fazer. As personagens sabem, só que não nos dizem. Assim, enfeitiçados pelos MacGuffins, ficamos completamente de fora, e no entanto, por isso mesmo, totalmente dentro do filme.

O MacGuffin é o “puro pretexto cujo único papel é pôr a história em movimento, mas que em si mesmo não é nada”. É um “puro nada”, um “puro vazio” em termos Lacanianos (vão lá ver, que já dei para este peditório, entre 1994 e 1998 na Universidade Nova de Lisboa, e o meu Jacques é só um, e chama-se Tati). O objecto-causa de desejo.

Se não fosse tão convictamente material, Juicy Salif – o icónico espremedor de citrinos que Philippe Starck desenhou em 1990 para a Alessi – seria o perfeito MacGuffin do design. É um objeto lindo, que nos atrai irremediavelmente, um caso sério de amor à primeira vista, mesmo que – e isto é maravilhoso – não façamos a mais pequena ideia para que serve (ou façamos imensas pequenas ideias sobre para que possa servir, o que vai dar ao mesmo).

Starck demorou bastante tempo a entregar à Alessi o seu projecto. Quando  finalmente o teve pronto, disse: “isto não é um espremedor de limões, é um iniciador de conversas”. Incrivelmente polissémico. Estupidamente social.

Ao olharmos para Salif (é um nome próprio, yes, provavelmente de inspiração árabe) o facto de não sabermos, à partida, o que é e para que serve é apenas a primeira parte do mistério. Alberto Alessi explica-o muito bem num texto escrito para celebrar os 25 anos da criatura, que mete Umberto Eco, o ornitorrinco (é um pato? é um mamífero?), e a busca de um sentido para Juicy Salif, em si um significante a rebentar significados, ou a prova inequívoca da arbitrariedade do signo (é Saussure, e também já dei para este), baralhador oficial de relações entre forma e função (a forma segue o quê?).

Em 1998, Umberto Eco e Michele Cogo realizaram uma experiência com 113 estudantes de Ciências da Comunicação da Universidade de Bolonha. Apresentaram-lhes o Juicy Salif e perguntaram-lhes, singelamente: o que é isto? Os estudantes produziram várias respostas agora reunidas numa publicação “25 Years Without Squeezing a Lemon”(estiveram para ser 10), um ensaio semiótico, espécie de docu-fiction sobre um espremedor à procura de sentido.

Perante Juicy Salif, a primeira pergunta só pode ser: mas o que é, afinal, este adorável alien metalizado? Um aranhiço? Um molusco? Um instrumento de tortura? É certo que, se nos desviarmos das patas e nos concentrarmos na cabeça, percebemos que Juicy Salif contém o negativo de um citrino, ou qualquer coisa do género. Mas esta é, possivelmente, a única pista. Em geral, o “bicho” mostra tanto quanto oculta. Por isso prende.

Resolvido o primeiro dilema, a segunda pergunta chega: e já agora, como funciona?

E aqui surge de novo o mistério. Não sabemos. Ou melhor sabemos, pelo menos em teoria, só que na prática não funciona. É um flop. Deita sumo por todos os lados (menos para dentro do copo). Pedaços de gomos por todos os poros.

A minha mãe, que é uma master da cozinha, garante-me que a coisa não faz sumos. Mas é genial para espremer directamente umas gotas de limão para um tacho fumegante. Agarra-se o bicho pelas patas, e assim inclinado, extrai-se-lhe a essência cítrica. Maravilha.

É mesmo assim, as melhores coisas são com frequência inexplicáveis.

Parece que, depois de ser contactado por Alberto Alessi para iniciar um projecto, Starck demorou imenso tempo até ter uma ideia. Até que pariu um elefante, esguio e estilizado, e por isso inesperado e belo.

Alessi encomendara-lhe um tabuleiro e o francês não estava para isso. Faltavam-lhe ideias (é compreensível. Um tabuleiro é muito flat. Chato. Como o percebo.)

Um dia, finalmente, a inspiração bafejou-o, depois de um almoço com a família, na ilha de Capraia. Comeram calamari. Regadas com sumo de limão. Pensa-se melhor de estômago cheio, e Starck, que é um bom garfo, e na altura até devia ser um bom garfo mais ou menos elegante, confirma-o. De barriguinha cheia, com o mar pela frente (por todos os lados, na verdade, estava numa ilha), começou a desenhar, num individual de papel, uma lula. Uma lula que se ia transformando, como se dançasse ao sabor da corrente, no espremedor de citrinos mais famoso do mundo. Dobrou o papel, meteu-o num envelope e enviou-o a Alessi. Há quem diga que tinha manchas de sumo de tomate.

(o Juicy Salif, o espremedor mais “icónico, controverso e provocador” do mundo,  ícone universal do design do século XX, faz 25 anos. Para celebrar o quarto de século, a Alessi produziu uma versão tão pura quanto desejável: branca, da cabeça aos pés, protegida por uma fina camada de  porcelana. É a coisa mais linda. Uma noiva. Mesmo que só faça limonadas com muito jeitinho. Laranjadas também. Mesmo que não sirva para mais nada senão reconfortar-nos a alma e elevar-nos o espírito. Já é tão bom. Merci, Monsieur Starck. “On vous aime, on vous adore, vous êtes notre Roi” *

*da tradução francesa de Where The Wild Things Are, de Maurice Sendak)

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