Meninos Tonecas

icon-08tonecasAntes de ser uma apatetada série de televisão, o Menino Tonecas era um livro (na verdade, era um programa radiofónico emitido pelo Rádio Clube Português a partir de 1934). Lembro-me de ir com o meu pai à Feira do Livro, e de me escangalhar a rir com as “travessuras” da endiabrada criatura, enquanto o progenitor se perdia em filosofias, poesias e direitos (algum calhamaço impreterível com anotações ao Código Civil que não lhe apetecia nada, mesmo nada, comprar, mas tinha de ser e tinha muita força).

Depois, voltávamos para casa, mão na mão, e nas nossas mãos Nietzsche e o Tonecas entrelaçavam-se. Era bom sentir aquela mão na minha, a abrir-me os olhos para todas as leituras que me esperavam, e era bom levar aquele livrinho comigo, porque o meu pai mo tinha dado, porque prometia, e sobretudo porque não ia ter de esperar muito até o ler, como acontecia com todas aquelas leituras prometidas que, jurava ele, me iam deliciar. Ce n’est qu’un début, continuons le combat.

Era bom chorar a rir com aquela tonteria. Tonecas, a personagem criada por José de Oliveira Cosme, tornou-se o meu primeiro ícone da travessura (sempre fui muito bem comportada). Tonecas, esse Shin-Chan do Estado Novo. Não mostrava o rabo, mas semeava o caos. Como Shinozuke, era sempre apanhado de surpresa na candura da sua impertinência, na sua ignorância supina, e deliciava-me. Um walking disaster da escolinha separatista.

Chorava a rir, e pelo caminho ia aprendendo algumas coisas sobre Geografia e Ciências da Natureza. Ortografia também, mas isso evidentemente é passé. Não sei se era esse o objectivo: uma espécie de educação pelo contra, uma educação de pernas para o ar (como deve ser) mas a subversão funcionou.

Hoje não faço ideia onde pára esse livrinho endiabrado. Gostava mesmo de o encontrar. Passá-lo-ia aos meus filhos. Com muito gosto. Acho que lhes faria muito melhor que os deprimentes manuais de língua portuguesa com que interagem. Em particular ao mais verdinho dos dois, S., que do alto dos seus seis anos se preparar para enfrentar mais uma semana de duras provas, perdão, “fichas de avaliação sumativa”.

Coitadinha da criança. Felizmente é inteligente e geralmente, depois de fazer os testes, chega a casa e diz-me:

“Mãe, hoje passei-me a tudo”

Que bom, filho, digo eu, melhor passares-te agora que mais tarde, quando as consequências dos teus passanços forem muito mais graves.

Dou-lhe uma festinha na cabeça, orgulhosa, e seguimos em frente, que é o caminho.

As fichas de avaliação sumativa são apenas um degrau intermédio na longa e árdua escalada para o sucesso. Aquelas provas cujo nome desconheço e que as crianças da nação fazem no quarto e sexto anos são outro, um bocadinho mais acima. Depois, nunca mais acaba. Uma escada com um corrimão do caraças, bem formatadinho e quadradinho, que é para não haver desvios.

Na base da montanha, está outra idiotice apuradíssima. Os Trabalhos Para Casa (TPC) que só eram piores quando se chamavam “Deveres” (os franceses, tão laicos e republicanos, insistem no disparate. Para eles, TPC são “devoirs”).

Os meus filhos, repare-se, fazem os TPC. E os “devoirs” também. Que remédio. Este é o sistema que temos, que prepara sucessos e não pessoas, como dizia o outro. A mãe galinha protesta mas deixa-os seguir. Eu nunca tive TPC até entrar para o 5º ano. Na abençoada escola onde fiz a primária, eram praticamente proibidos. Estou eternamente grata aos meus pais por me terem posto numa escola assim. Os TPC não me fizeram falta nenhuma.

Quando a escola não faz a coisa certa, há pais que escolhem, com lucidez e bravura, salvar os filhos da selvajaria reinante. Conheço alguém que proibia terminantemente os filhos de fazerem os trabalhos de casa. O verdadeiro pai-herói. Não sei qual era a reacção das crianças, na altura, mas desconfio que hoje agradecem. São pessoas.  Boas.

Não vou ser tão radical ao ponto de sugerir que as crianças não devam aprender, de pequeninas, a ser responsáveis e autónomas. A fazer fretes, até, já que a vida está cheia deles e não vejo nada de mal em ir treinando a capacidade de resistência – resiliência – face à frustração. Mas há maneiras e maneiras de o fazer. E os TPC, aos seis anos de idade, parecem-me a mais fácil, e mais estúpida (amiúde vêm juntas, estas duas) de todas.

Pior do que esta institucionalizada estupidez imposta aos filhos da Nação, só mesmo o institucionalizado colaboracionismo dos paizinhos da Nação. Quando observo, como fly-on-the-wall, as reacções dos pais, os preparativos dos pais, as comemorações dos pais perante tudo o que tenha que ver com as “provas”, estremeço. Eles também, de resto. Tremem como varas verdes perante a possibilidade de fracasso dos seus desprotegidos brotos, sobretudo nas semanas e dias que antecedem a passagem do Cabo das Tormentas, e depois comentam as notas com preocupação, como se as crianças se medissem aos pontos. Assim, em vez de irem curtir o sol que desinteressadamente nos abençoa (para a Praia, para a Estrela, até para o inferninho do Tourel, se for preciso) trancam-se em casa durante o fim-de-semana, fecham portas, correm estores, e no bunker da ignorância preparam os seus brotos para o grande dia.

Não sei o que será feito do Tonecas (que tinha “deveres”, como é evidente, e que muitas vezes não os fazia, como é recomendável) e sei que existe uma reedição que congrega todos os “diálogos humorísticos”. Claro que a vou procurar. Os meus filhos precisam mesmo de um Tonecas na vida deles. Em boa verdade, acho que é a Nação inteira que precisa de um pequeno mestre com tanta categoria.

 

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