MacGuffins e Gambozinos

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Um leitor atento recomendou-me, a propósito deste post, e da história dos MacGuffins do design, a leitura de uma nova revista holandesa chamada, yes, MacGuffin.

Juro que não fiz de propósito. Foi coincidência. E que beleza de coincidência (não sei o que têm as coincidências mas até as infelizes têm uma asa de felicidade).

Foi um raiozinho de sol que imediatemente fez todo o sentido. Cliquei no link, fui ao site e dei de caras com uma publicação comme il faut, daquelas às quais nada acrescentariamos e, mais importante ainda, nada retirariamos (diz uma escriba que sabe que editar é muito mais complicado que escrever). Em ambiente digital a revista é um lindíssimo manifesto que nada como peixe na água entre zero e uns. Um teaser magnífico onde nem sequer falta a fantasmagórica e no entanto familiar voz de Hitchcock a explicar o que é um MacGuffin.

Não resisto à transcrição do pedaço de entrevista de Hitchcock a François Truffaut. É assim a história:

‘There are two men sitting on a train going to Scotland. One man says to the other “Excuse me Sir, what’s that strange parcel you have up there in the luggage rack?”. “Oh,” says the other, “that’s a MacGuffin”. “Well,” says the first man “What’s a MacGuffin?”. The other answers, “It’s an apparatus for trapping lions in the Scottish Highlands.”But,” says the first man “there are no lions in the Scottish Highlands!” “Well,” says the other, “then that’s no MacGuffin.”‘

Esta pérolazinha de rabo na boca é o ponto de partida para o frenesim dos MacGuffins, esses objectos que, não servindo para mais nada, servem para “pôr a história em movimento”. A propósito de caça: em Português, o MacGuffin tem um parente afastado, e no entanto, tão próximo: chama-se Gambozino. A única diferença é que enquanto o MacGuffin se oferece, esbanjado, ao olhar, o Gambozino não se vê. O mecanismo é o mesmo: ambos despoletam o movimento. Quem nunca caçou Gambozinos não sabe o que perde. Eu fi-lo em criança, e repito-o agora, sempre que posso, com as minhas crias e outras que se juntem. A última que me lembro foi uma caçada noturna na Montanha Mágica mais bonita que temos em Portugal. Não tinhamos lanternas, mas havia iPhones. Os meus filhos não acreditam no pai Natal, mas em Gambozinos, sim, graças a Deus.

Voltando à revista, e à nobre missão a que se propõe, de contar as “histórias fabulosas sobre a vida das coisas comuns”. Claro que não me fiquei pelo site. Precisava de ter a revista nas mãos, num não s’aguenta fulminante e irreprimível, mas ela acabou por vir ter comigo. Caiu-me no colo. Uns dias mais tarde, ao passar na melhor loja de revistas de Lisboa – a loja das revistas – com uma curadoria imaculada, apenas superada pela simpatia genuína, e humilde, de quem governa o lugar, dei de caras com a MacGuffin de carne e osso. Estava ali à minha frente, e não foi preciso namorar-me nem meio segundo. Já estava dentro do saco (a última Little White Lies, também, mas isso já é um clássico cá em casa).

Desci a Calçada do Combro deliciada. Nem foi preciso parar na Bijou para comer o palmier do costume, porque estava mesmo bem. Cheguei a casa, e deixei-a repousar durante alguns dias. Vários dias. Dias a a fio. Finalmente, este fim-de-semana, tirei-a de molho para a levar a passear ao Jardim da Estrela (parece a Disneyland, mas continua a ser o Jardim da Estrela onde fui sempre tão feliz) e, deitadinha na relva, folheei-a primeiro e li-a depois. Valeu a pena a espera. A táctica tântrica. Cada página é um convite à contemplação e mais do que isso, o início de uma conversa. De várias conversas, sobre a vida, os objectos que nos rodeiam, e as relações que com eles estabelecemos, relações que nos tornam humanos.

O MacGuffin deste número inaugural é a cama. O tema é riquíssimo, como na realidade são todos os temas se os soubermos olhar nos olhos, e as conversas que se desatam, desfazendo o nó, são luminosas. Não vou aqui elencar as razões pelas quais todos deveriamos ler a MacGuffin, ou tê-la simplesmente nas mãos no caso de sermos analfabetos ou não percebermos patavina de inglês. Nem todos os textos, como nem todas as imagens, têm o mesmo nível. Provavelmente, cada um, ao lê-la, fará o seu próprio mapa de preferências, afinidades, eleições. É precisamente por isso que a MacGuffin é tão boa e inesperada.

Sem querer estragar a surpresa, parece-me que há muito boas razões para a lermos/vermos. Afinal, não é qualquer revista que tem a Charlotte Rampling na capa, ou um texto belíssimo de Sam Jacob que explica como o design faz de nós humanos, ou mais uma peça fantástica para encaixar no nosso museu imaginário de palavras japonesas que amamos não queremos esquecer (Mottanai). Enquanto esperamos pelo próximo número (é semestral) de certeza que lá voltaremos muitas vezes. As coisas da vida hão de chamar-nos sempre, mas a vida das coisas também.

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