Libertação

icon-11charlotte-perriand-1935Andava há que tempos para postar esta fotografia de Charlotte Perriand por aqui e finalmente arranjei uma desculpa. Soutiens.

Ultimamente, os soutiens perseguem-me. Nas conversas reais, de carne e osso, e também naqueles simulacros de conversa com que nos entretemos nas redes sociais. Estava a tentar fugir ao tema, mas aperta-me, como um soutien mal desenhado, com o fecho a arranhar-nos as costas e as alças a estrangularem-nos os ombros.

Primeiro, foram as montras das lojas de lingerie para massas. De repente, desata tudo a libertar-se dos aros, um descaramento super confortável. Eu nunca fui de aros, portanto fiquei na mesma. Mas agradeci por todas as fêmeas, que finalmente se vêem emancipadas da escravatura dos arames (por mais subtis que sejam, são arames. Quando tudo o que queremos são sedas e sossegos)

Depois, foram as discussões, em vários círculos e a várias mesas, sobre o ideal de peito feminino. Copas copiosas, maminhas minimais, peitos poderosos, cada um argumentava a favor do seu seio sonhado, e não havia consenso possível. Conclui (parece que há um estudo sobre isso) que o que importa, o que verdadeiramente importa, é a simetria. Grandes, pequenas, sulcadas ou espigadas, vale tudo, desde que sejam assim: simétricas. Muito mais descansada, e uns scroll down depois, dei de caras com este artigo publicado na página queridinha do El País. Segundo as espanholas, parece que temos de voltar ao princípio e fazer tábua rasa. Isso mesmo: tábua e rasa. Os peitos querem-se subtis. Adeus Marilyns, Monicas e Scarletts. Giro, giro, é ser como a Keira. Desconfio que o artigo é encomenda de uma clínica de cirurgia estética e portanto muito pouco independente, mas ao que vamos: em matéria de soutiens e dos peitos que sustentam, este Verão, less is more (E deus está nos pormenores. Pequeninos.)

Diria mesmo que bra-less is more. A moda, inaugurada pelas feministas incendiárias dos anos 60-70 pega como fogo no mato. Contou-mo um arguto observador de sexo masculino, obviamente deliciado com a profusão de biquinhos que de repente se acendem por aí, debaixo de camisas e tops e marcels de mulheres de todas as idades.

Acho óptimo. Sempre me pareceu que a liberdade é das coisas mais bonitas do mundo, e em matéria de soutiens, pourquoi pas? Devo dizer que não percebo nada de soutiens. A Elle Macpherson dizia que usar a lingerie certa é meio caminho andado para conseguir um look divinal. E se “o corpo” o diz, como o poderemos contrariar? Mas quando se trata de soutiens, reconhecer-lhes o protagonismo, a missão, a entrega, não significa que se seja capaz de descodificar as combinações de letras e números que escondem nas suas malévolas etiquetas.  Muito complicado. Pouco intuitivo. Pior, mesmo, só um soutien que não se desaperta na hora certa.

Ainda não me decidi sobre a continuidade da minha relação com os sustentadores, mas isso também não é para aqui chamado. O que interessa é que tanto sururu (sou-ru-ru) acabou por trazer para aqui a foto de Mademoiselle Perriand, que para além de ser lindíssima, espertíssima, talentosíssima, se calhar também não gostava lá muito de soutiens. E isso, sim, é libertador.

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