À procura do carpinteiro (João Mouro na Show me)

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A primeira vez que vi o trabalho de João Mouro foi coberto de livros. Era uma estante que ocupava uma parede inteira do extinto Fabrico Infinito. Estava carregada. Coisa rara numa estante, se não tivesse livros, seria linda à mesma. Talvez porque fosse do seu carácter e estivesse sempre desalinhada. A rir. Desconchavada e bela, em processo e acabada. E bela. “Quem fez?” perguntei. “Foi um rapaz que faz umas coisas muito giras com bocados de madeira que encontra por aí.”  responderam-me. Como explicou alguns anos mais tarde a revista Frame, mais ao menos assim, o rapaz é capaz de transformar trash into treasure.

Atacada por um bichinho, fui à procura do carpinteiro. Encontrei-o rapidamente (Lisboa é pequena e o mundo é um lenço de papel) e depois visitei-o no seu atelier na Rua do Diário de Notícias. Na altura, eu estava a fazer um trabalho sobre jovens criadores portugueses e fazia todo o sentido que entrasse. Não porque fosse capaz de transformar trampa em tesouros, que isso há muitos que fazem, e há bastante tempo, mas porque aquilo era mesmo bom. Não me lembro bem da entrevista. Aliás, tinha a revista aí algures, em mais um prédio de papel desses que abundam cá em casa, e desapareceu num ataque de desprendimento qualquer, daqueles que abundam cá em mim.

Na verdade, lembro-me apenas que quando cheguei, o atelier era um caos de tábuas e tintas e pregos e tirinhas de alumínio, com garrafas e beatas, e que 24 horas mais tarde aquele mesmo espaço abriria as portas todo arrumadinho, como casa temporária da Show me em Lisboa (estavámos na Experimenta), e eu não queria acreditar.

Também me lembro da fotografia que acompanhava a entrevista. Nela, João Mouro estava sentado num trono de madeira, chamado, muito apropriadamente, Ricas Vidas. Nunca mais me esqueci. Explicou-me que a ideia da peça tinha surgido das bocas que mandava aos transeuntes, vizinhos do bairro, que todos os dias lhe passavam à porta muito atarefados a fazer tudo, que é, como se sabe, a melhor maneira de não fazer nenhum. “Ricas vidas”, lançava-lhes. “Ricas vidas”, lançavam-lhe de volta.

Este verão João Mouro está na Show Me, em Braga, com a exposição Foi Por Casa do Carpinteiro, até 12 de Setembro. O artista, que nasceu em Faro e estudou Belas Artes em Lisboa e Milão, volta a Encourados com as suas esculturas e objectos feitos de débris, materiais vários e citações díspares, disparatadas, graças a deus.

São tão poderosos visualmente como verbalmente (o modernismo de pernas para o ar, ou virado do avesso, uma casa com vertigens kitsch, ou, como numa exposição de João Mouro que infelizmente perdi, com um título primoroso: O arquitecto armado em betão). Continuam a citar a arquitectura, o design, e tudo o que está pelo meio. Continuam a provocar com elegância, cheias de humor e pensamento. São uma maravilha. Se tivesse uma casa grande a arejada estava cheia destes bichos mecânicos e de madeira. Como não tenho, fico-me pela utopia, que é o que João Mouro faz, desfazendo, nestes esplendorosos escangalhos. Provavelmente, estando-se nas tintas para tudo, incluindo a utopia.

(as fotografias são de David Vidal, excepto essa mesmo aí em baixo, de Max Ernst a cavalo, que não resisti a postar, porque sim, e que, não sendo para aqui chamada, até pode ser.)

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