Instagramas

icon-09IMG_0986

Gramo bué o Instagram. Mesmo. Acho que devia chamar-se Instagrama. É um maravilhoso ajuntador de alminhas dispersas, que não é o mesmo que dizer perdidas. Não é que esteja à procura, porque essas almas não se procuram, encontram-se, mas acredito piamente que o Instagram é o caminho mais curto para se encontrarem almas gémeas. Várias.

E não tem nada de corporal, esta procura (gosto mais do termo “quête”, mas depois dizem-me que sou muito afrancesada). Não nos enganemos. Apesar de vagamente estonteada, não sou tontinha de todo, e acredito que haja muito boa gente a ir ao Instagram para isso mesmo: procurar corpos. Ou então, o que vai dar ao mesmo, para os mostrar (é o temporizador, estúpido).

Mas não são esses narcisos e narcisas, exibicionistas e voyeurs (ou nem por isso, se pusermos um coraçãozinho toda a gente sabe que vimos, e até gostámos) que me interessam no Instagrama. Por mim podem ser narcisos e voyeurs à vontade, só os vejo se quiser. Cada um sabe de si, Deus de todos, é proibido proibir, and so on and so off.

O que gramo mesmo, mesmo, no Instagram é o facto de podermos procurar eleitividades, ou seja, afinidades que elegemos. Mais-que-tudos e baes*  visuais em barda. Não há exclusividade, não há posse, não há ciuminho. Só amor. Montes de coraçõezinhos encarnados. Simplesmente, seguimos as imagens de que gostamos, sabendo que, por enquanto, antes de sermos todos comidos pelas máquinas, por trás delas estão pessoas de quem talvez gostássemos. Ou não.

Não é essa a questão. A questão é que quando abrimos a aplicação mergulhamos no mundo que escolhemos. Podemos até escolher só ver, sem ser visto. Podemos até escolher quem nos vê (se formos privados). O que é um luxo, nos dias que correm.  O Instagram é um quarto com vista sobre o que quisermos, uma janela abençoada.  Uma janelinha selectiva (electiva) onde só vemos coisas bonitas, inteligentes, inspiradas.

É perigoso, dirão alguns. Talvez. Só enquanto não soubermos que aquilo que ali está é só isso: uma janelinha, mais nada. Não é a vida. Não é a vista. É uma janela. Janelinha por janelinha, sempre é melhor que a Têbê.

De repente, somos asnos perseguindo uma cenoura, cheia de filtros, que se agita, sedutora, à nossa frente. Mas se lá estamos porque queremos, se sabemos ao que vamos, porque não? Pelo menos fomos nós que lá pusemos a cenoura.

O Instagrama pode até lavar-nos a alma (por exemplo, quando o Daniel Blaufuks publica uma foto de uma janela e suspiramos) mas não nos lava mais nada. Sobretudo, não nos lava o cérebro, que é o que o resto do mundo faz constantemente.

Sabemos que o que ali se passa é ficção. Toda a fotografia é ficção, no sentido em que é um recorte, uma escolha, uma construção, uma mentirinha. Mas ali tudo está claro. Mesmo com filtros. Nem nos interessam aquelas vidas que se escondem e se revelam, o que está por trás, o que virá depois. Interessa-nos o instante. É isso que enfeitiça. É isso que adoramos.

Descobri mais em algumas semanas de Instagrama do que na minha vida toda na Internet. A sério. Artistas, provocadores, anormais, iluminados. O Instagrama é uma viagem. Os hashtags são o passaporte. Os olhos também servem de cartão de embarque, se estivermos com preguiça.

Se o Walter Benjamin fosse vivo, de certeza que seria um flâneur do Instagrama.

Se o Orwell fosse vivo, será que se rendia a este big brother docinho?

Não faço ideia. Não conheço a perfeição e desconfio que não existe.

Como todas as coisas boas, o Instagrama tem um lado dark. Por exemplo, o facto de nos localizar (se deixarmos). Por exemplo, o facto de ter sido engolido pelo Facebook. Por exemplo, o facto de haver imensos utilizadores que acham que o Instagram é o Facebook. Por exemplo, o facto de ter dezenas de filtros mas ainda não ter encontrado nenhum para aplicar às marcas e aos autopromotores (e interesseiros, e bajuladores). Mas, tirando o facto de se terem vendido ao Facebook, tudo o resto é contornável. Não precisamos de dizer onde estamos, não precisamos de revelar mais do que queremos, e também não precisamos de seguir marcas nem pessoas desinteressantes, vidradas no seu umbigo e na sua própria mediocridade.

Resumindo: não precisamos de levar com mais fotografias de gatinhos. Só se quisermos.

O Instagrama é o máximo. É poesia. Visual e mais ainda. Os hashtags, que são hyperlinks mais expansivos, são a cereja no topo do bolo. Usa-os bem, e conseguirás imensos seguidores (se for esse o teu objectivo). Com sorte, tropeçarás em algumas alminhas que, como tu, gostam de Tati. Ou que gostam de ver as árvores de baixo a cintilar ao vento. Com jeitinho, encontrarás alminhas que gostam de Tati e de ver as árvores de baixo a cintilar ao vento. E depois essas alminhas terão encontrado outras alminhas, que descobres, com espanto e satisfação, serem capazes, como tu, de ficar horas a contemplar uma janela. E a luz a passar por ela. E assim vais saltitando, de nenúfar em nenúfar. E como se as fotografias não chegassem, e como se os hashtags não fossem suficientes, começas a criar os teus próprios hashtags e a rir-te pelo meio. A descodificar os hashtags dos outros e a rir-te pelo meio. A ler escritores que, escrevendo, não sabem usar hashtags e a rir-te pelo meio.

Resumindo: identificas-te. É um apparatus como outro qualquer. E amamo-lo.

*before-anyone-else

(em cima, um instagrama publicado ontem @misshaymad)

Anúncios

Respond to Instagramas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s