Por cima do vulcão (Ernest Zacharevic na Underdogs)

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A melhor parte da arte pública invadir as galerias é que a festa continua na rua. É assim na Underdogs, que acolhe por estes dias (mais ou menos, parece que vão de férias mas reabrem a 1 de Setembro) as obras que o artista lituano Ernest Zacharevic fez de passagem por Lisboa. Vale mesmo a pena. Os azulejos inspiraram-no, o origami também, mas inspiraram-no, sobretudo, as travessuras (é mesmo esta a palavra) das crianças que jogam um jogo fabuloso em que é proibido pôr os pés no chão (daí “Floor is Lava”, que dá nome à exposição). Como se queimasse.

O divertido é que depois de ver o trabalho de Zacharevich nos sentimos mesmo assim: a levitar, por cima de um vulcão incandescente. Mesmo bem. Fui com S., que ficou embasbacado a olhar para a gigante girafa japonesa e fez um comentário sobre a montanha de carrinhos de supermercado engolida pela lava branca, com dois diabretes em cima. Conversámos e curtimos. Entrámos de mão dada e saímos levezinhos, a flutuar.

É maravilhoso. Zacharevich pinta nas horas e todos os quadros são tensão e movimento. As esculturas trazem paz, também. As crianças são incrivelmente expressivas, sim, e não são anjinhos, naturalmente. São verdadeiras, são surreais, estão a brincar, estão-se nas tintas, tiram macacos do nariz, são apanhadas em flagrante e ficam na mesma. Seres superiores (daí domarem a escala, treparem elefantes)

Fiquei enamorada de um tríptico mais um, a sequência da menina empoleirada numa girafa de papel (mesmo, estas não são pintadas a óleo, como o resto). Já estava vendido. Suspiro como se o pudesse comprar. E ela a olhar para mim.

Depois aparece outra criatura cor-de-rosa a cavalgar um cisne branco, igualzinho aos que a minha mãe me fazia, só que gigante. Claro. O fundo é muito escuro. Claro. Que bom.

Depois saímos para a rua. Fomos caçar a obra de Zacharevic por Xabregas, como quem caça borboletas. Encontrámo-la perto do LIDL, e foi outro espanto, um espanto quase maior, como se o espanto anterior não chegasse. Lá está outra menina, de vestido azul como uma nuvem de graffiti, sentada no umbral da porta, e depois aos saltos, nas janelas sucessivas, entaipadas, do edifício em decomposição. Tão bonito não saber se já estava ali, aquele vestido, e ele apenas lhe acrescentou o corpo (depois percebemos que não estava).

Não sei que percentagem da arte pública está na relação entre o que se pinta, acrescenta ou escarafuncha, e o que já lá estava. Parece-me que está quase tudo, nessa relação. O resto é a mão de Zacharevic e o resto é poesia. Naice.

(as fotografias foram todas tiradas ontem, na Underdogs e na sua extensão pela cidade. O S. estava de t-shirt azul por acaso)

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