Tout Tati

icon-14tati_par_doisneauSou pouco partidária de obrigações, mas no caso de Jacques Tati abro uma excepção. Parece-me que devia ser obrigatório ver os filmes de Tati a partir da mais tenra idade. Na escola primária, quando fosse. The sooner, the better.

Fiz a experiência por estes dias com G. Levei-o a ver Tati, que como toda gente já deve reparado por esta altura, está em grande no verão concombre da capital, em que nada se faz, e por isso mesmo se pode fazer tudo. O Nimas, que no ano passado nos presenteou com Ozu, dedica-lhe um ciclo, como todos os seus 6 gloriosos filmes. Que maravilha. Esta estação não tem nada de parva.

Entrámos na sala para uma sessão vespertina. Fomos recebidos por uma legião de cabecinhas cinzentas, esperando, com o tempo de quem já viveu muito e tem tempo para tudo, que o filme começasse. Estreámo-nos com Les Vacances de Monsieur Hulot. Pensei no disparate que era ter um filme de Tati, em versão restaurada, todo à nossa frente, e a média de idades da plateia ser, facilmente, 60 anos. Não porque tenha nada contra a maturidade da audiência, não porque ache que Tati é (exclusivamente) para crianças, mas porque me pareceu uma pena, um desperdício, que não houvesse mais caçulinhas a deleitar-se com a frescura de Tati, aquele que “tantas vezes acusado de passadismo, não pensa senão em inovar”, como escreveu o cine-filho Serge Daney.

Enquanto sussurava no ouvido do meu filho estes lamentos, deu entrada na sala uma família francesa: pai, mãe, filha e filho. O filho devia ter uns 5 anos. Fui a tempo de corrigir o meu lamento. A criança revelou-se o mais entusiasta dos espectadores: riu a bandeiras despregadas, do alto da sua cadeirinha acrescenta centímetros, replicou os gags em gargalhadas sonoras, comentou tudo, saiu de barriga cheia.

Nós também, é óbvio. Fascinados a partir do momento um, com aquela sequência inicial que só por si já valia o filme todo. Enquanto todos se apressam, desnorteados, para chegar rapidamente à estância de verão, Mr. Hulot toma o seu tempo, que é o tempo da liberdade. Chega no seu carro de cacos e dá de caras com um cão pachorrentamente estendido na estrada. O mesmo cão que segundos antes se desviara do caminho para dar passagem a um veraneante histérico. Hulot aproxima-se, trava o carro, e como o cão não se mexesse, lança-lhe uma buzinadela. Frouxa. O cão não reage, e sai outro som esmorecido. E outro ainda, igualmente tímido. Até que o cão se levanta, como quem faz um favor, e Hulot segue caminho.

Os filmes de Tati são muitas coisas, mas não seriam os mesmos sem os prodigiosos gags sonoros. Dei por mim a pensar que Tati, que era muito diferente de Buster Keaton (a começar pelo tamanho, como bem assinalou a cine-filha Leonor Pinhão), é um bocadinho um Buster Keaton com som. Ou o som que imaginamos quando vemos os filmes de Buster Keaton, e só podemos conceber acompanhados pelo pianinho dos filmes mudos.

Os filmes de Tati são muitas coisas, todas elas esplendorosas, modernas, explosivamente criativas e irrepetíveis, mas são sobretudo um generoso convite à contemplação. Porque tão importante quanto o que se passa à nossa frente (e o som, e o som), tão importante quanto o que vemos, é a liberdade que temos para ver. Se todos os filmes são construídos pelo espectador, no caso de Tati, cada espectador é um filme. É essa avassaladora liberdade o maior dos seus espantos. Porque ao mesmo tempo que somos postos perante uma imagem (elegantemente coreografada, minuciosamente enquadrada), é-nos dada a extraordinária liberdade de deambular pelo plano, de contemplar. Tantas vezes fixa, a câmara de Tati é incrivelmente livre. Por isso, também, é o lugar da poesia.

E Tati, o mais perfeccionista e controlador dos realizadores (basta pensar na cidade cenário que mandou construir para Playtime, a sua ruinosa obra-prima) é também o menos autoritário deles. O que é, aparentemente, uma contradição com a sua condição de autor.

Depois das férias, voltámos a encontrar-nos com Tati/Mr. Hulot em Mon Oncle. Havemos de ir ao Nimas, mais vezes, este Verão. Para ver Tati, e o seu génio, passear-se de calcanhares levantados entre as cabecinhas grisalhas, e não só.

(O ciclo dedicado a Jacques Tati está no Nimas até 16 de Setembro. Entretanto, arranca também a Norte, no Teatro do Campo Alegre, a partir de 1 de Setembro. Para assinalar este ciclo dedicado à obra completa de Jacques Tati, a Medeia Filmes convidou uma série de ilustradores portugueses a criarem cartazes inspirados nos filmes do realizador francês. Estão alguns aí em baixo. Pérolazinhas verdadeiras. Trouxemos para casa dois, como duas baguettes debaixo do braço. Todos contentes.)

(A fotografia aí em cima, um retrato de Tati com a sua bicicleta em fase de montagem, de 1949, é de Robert Doisneau.)

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