Lisboa do Avesso

icon-09IMG_1341Vi fugir Agosto como quem vê a banda passar. Lisboa estava deserta. Lisboa estava cheia. Com os de cá ausentes para banhos, e os de lá cirandando por aí, era uma outra cidade que se revelava. Um novo topos. Gerou-se uma grande confusão: mas onde estamos então, afinal?

Estamos em casa. E é isso o melhor de ser de cá, neste aqui e agora que é a única coisa que verdadeiramente existe, que genuinamente importa.

Quantas vezes cheguei a esta cidade, vinda de lá, e agradeci aos deuses ter nascido aqui. Sem lamechices, sem nostalgias. É assim. É bonita que se farta. Ao cruzar a ponte, que para mim não devia ter data, nem outro nome a não ser o que é – a ponte sobre o Tejo – dava por mim a pensar, sempre, que era a primeira vez que a via, esta cidade. A primeira vez, muitas vezes. É esse inesperado o maior, e o mais belo, dos traços de Lisboa.

Perguntam-se por aí se Lisboa será a nova Berlim. Também já me fiz essa pergunta, e há uns tempos, para um jornal, coloquei-a a várias pessoas inspiradas – de cá, de lá- que fizeram de Lisboa o seu ninho. Criativo e não só. Hoje confesso que não me interessa muito a questão. Está-se bem, aqui. Quem está, está e quem não está, estivesse.

Lisboa nunca será Berlim porque senão não nos restaria Lisboa. Não podemos contar só com Paris. Mas é bom, sendo de cá, ter a sensação de que estamos no lugar certo. Quando visito uma cidade de que gosto por uns dias, dou por mim a querer esticar o encantamento. Penso muitas vezes: “que bom seria viver aqui”. Andar de bicicleta, comprar o jornal, dizer bom dia ao senhor do café, meter a chave à porta naquela precisa rua. Não precisar de mapas. Agora sinto o mesmo, mas do avesso. Quando meto a chave à porta, são os turistas que me olham com uma expressão quase parva de contentamento “que sorte que tens de viver aqui”.

É mesmo isso. Só o rio, só a luz, já era tudo.

Toda a gente fala dos turistas, dos enxames de tuk-tuks, e da gentrificação dos bairros ditos “populares”, que é uma espécie de bicho-de-sete-cabeças para urbano-depressivos desocupados. Mas há coisas piores. A estupidez, por exemplo.

Podia faltar-nos o rio. Podia faltar-nos a luz. Podia desaparecer Lisboa inteira e talvez assim percebessemos como a amamos, com todos os seus defeitos ocasionais, e como devemos agradecer aos deuses tê-la para nós, sem a termos merecido (os deuses são uns mãos-largas). Talvez assim percebessemos que do avesso, ou colada à pele, Lisboa é aqui, é agora. E Lisboa é linda.

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3 responses to Lisboa do Avesso

  1. Luis Afonso

    Que saudades! Felizmente estou a caminho.

    Outra coisa boa é o orgulho que nos dá mostrar a cidade (e o país) aos amigos de fora.

  2. […] de navalhada em navalhada assobiando para o lado e fingindo que nada se passa. Alimentando a ilusão, e contra mim falo, que isto vai ser sempre assim, que Lisboa é Linda e será assim para sempre. […]

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