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Cada geração tem os seus vícios, as suas manias, as suas muletas, mas não deixa de ser revelador que a palavra mais identitária da adolescência pátria seja, precisamente,
Tipo
Correndo o risco de parecer aquele rapazinho que escreve no Espesso e faz associações que não lembram ao menino Jesus, nem a todos os seus discípulos juntos, contorcionismos mentais para chegar, yes, a lado nenhum (we’re on a road to nowhere, só que em mau) eis o que me ocorre:
“Typo”, em inglês, é um erro tipográfico, uma “gralha”.
Se arrendondarmos para português, temos “tipo”.
de onde, dê repentxi, o tipo é primo da gralha.
As meninas sentadas na mesa ao lado da minha, no café da minha infância, repetem “tipo” como se não houvesse amanhã.
tipo a setôra é uma granda chata tipo pede-nos para comentar tipo mas depois tipo quando pomos o dedo no ar tipo continua a falar tipo yaaaa tipo depois quando se cala tipo já não sabes o que ias dizer tipo
tipo o livre arbítrio tipo quer dizer tipo que tu é que fazes o teu destino tipo mas deus tipo eu acho que deus põe as escolhas à tua frente tipo mas ele já sabe tipo já sabe o que vais escolher tipo por isso tipo não há livre arbítrio
logo, as meninas sentadas na mesa ao lado da minha, no café da minha infância, onde tento saborear a paz de um dia ao lado de alguém que me é querido,
são umas gralhas
tipo
vem tudo isto a propósito de coisa nenhuma, ou da constatação de que estamos a ficar velhos, a juventude está perdida, sem inspiração ou centelha, tomada de acefalia profunda, e amamos, oh sim, amamos perdidamente, O Mundo de Ontem, secondo Zweig. Apesar de sermos progressistas.
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