O óculo

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Depois do téni, o óculo. Em quatro décadas de vida, nunca tinha ouvido tal coisa. Ou se calhar sim, mas já me tinha esquecido. Estamos sempre a aprender. A esquecer de novo. Há pessoas para tudo.

O senhor da óptica, por exemplo. É uma enciclopédia de olhos. Desconfio que tem um fraquinho por seres mitológicos.Quem diz “téni” se calhar imagina um mundo perfeito povoado de Sacis Pererê. Se o senhor da óptica diz “óculo”, se calhar é por gostar à brava de ciclopes. A verdade é que, extremamente versado em tudo o que tem que ver com visão, falta dela, astigmatismos, miopias, dioptrias e focagens, foi muito esclarecedor.

Depois de uma visita ao oftalmologista, onde fiquei a perceber que não sou eu, é a PDI, e depois dos 40 o zoom começa mesmo a falhar, como se emperrasse (algo de que geralmente nos damos conta nos lineares do supermercado), dirigi-me ao oculista para aviar a receita.

Levava no bolso o meu velho par de óculos, demasiado gasto e riscado para contribuir no que quer que fosse para aliviar a minha “vista cansada”(vista: aqui está outra palavra que me encanita. Não é vista, é visão. Vistas querem-se largas, desafogadas, olhares tingidos de ouro como os “belvedere” das cidades do Sul).

Até gosto dos óculos, queria trocar só as lentes, se fosse possível.

– Ora pouse aí o óculo, por favor

– O óculo?

Não sei se disse, se pensei. Ninguém respondeu do outro lado. Para meio entendedor, meia palavra basta. Meio óculo também, pelos vistos. Caladinha, obedeci e pousei-o(s).

Reparem: não é embirração com o senhor da óptica. É mesmo uma intolerância particular a esta mania de abusar do plural singularizado (isto deve ter outro nome, mas faço-me entender).

Mas estamos sempre a aprender. E há pessoas para tudo. Ai ele há pessoas para tudo, se há. Como bem me lembrava a minha amiga G., que é outra enciclopédia, empre de olho azul bem aberto (ooops, e agora fui eu), também há quem diga “numaro”, e “treuze” e não por isso deixe de ser boa pessoa, merecedora do nosso carinho e respeito, e até admiração. Até há poetas, e “tantos cantores”,  que põem”algo” no meio de uns versos, e a malta fecha os olhos e deixa passar. E também há quem diga “bem haja” e aí salta-me a urticária, mas até isso tolero numa bonita alma que se me decida aparecer.

O senhor da óptica foi mesmo simpático. Se calhar é só um Queirosiano renitente, que gosta mesmo é de óculos solitários. Ou então está a pensar naquele óculo com que se avista o que está longe – uma ilha, uma ilha. Tão generoso foi comigo, que levava um óculo e trouxe dois, que são um só na realidade. Fez-me imensas marcações, com espelhos e luzinhas, com paciência, e delicadeza, só para ter a certeza que, montadas naquelas armações, as lentes ficavam no sítio certo, na direcção do meu olhar. Partilhou comigo uma ínfima parte do seu conhecimento, e saí de lá a saber que os músculos dos olhos, apesar de começarem a preguiçar relativamente cedo, são incansáveis a dar-nos a ver o mundo. Dão-nos o mundo em bandeja, e não pedem nada em troca.Desde que abrimos a pestana até que a cerramos, ao fim do dia, são de uma generosidade imensa. Só descansam quando fechamos as pálpebras. E mesmo assim, agitam-se nos sonhos.São um músculo milagroso. Batem mais que o coração. Só por isso, merecem a nossa eterna gratidão.

(aí em cima, estão os óculos MMDUAL005 da Mykita, fruto de uma acertada colaboração com a Maison Martin Margiela. Bem vistas as coisas, se fossem todos assim, óculo, óculos, who cares?)

 

 

 

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