Navalhada

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376117_212824215461818_1449547905_nO meu avô, que era careca até ao último cabelo, ignorava o evidente desapego da sua luzidia cabeçorra e vinha ao barbeiro ao Chiado, aparar as pontas do farto bigode, digo eu, já que o que lhe faltava no topo da cabeça lhe sobrava entre o nariz e o lábio superior (é na amplitude desse espaço que despontam os verdadeiros bigodes, aprendi).

O meu pai, que, cada vez mais desapegado de tudo, caminha voluntariosamente rumo à indigência, e que talvez por isso, vá cultivando antes do tempo a estética sem-abrigo, ainda que lavadinho, seguiu os passos do progenitor, e também lá parou muitas vezes, ora barba, ora cabelo, ora barba e cabelo, não sei se à navalha se com outras modernices, mas sempre bem.

Os meus filhos, que nunca puseram os pés num cabeleireiro (nem mesmo neste com dois “l”s) porque a mãe extremosa, sempre empenhada em fazer deles bons rapazes primeiro, e bons homens depois, entendeu que levá-los ao barbeiro -uma coisa de homens- seria um bom príncipio (apesar de sexista), não tiveram a mesma sorte e quebraram imperdoavelmente a tradição familiar. Não me lembro de alguma vez lá terem entrado – ironicamente, no letreiro dizia “CABELLEIREIRO” – apesar de várias vezes termos estado à porta, admirando, pelas vitrines, o chão de mosaico, os espelhos com grossas molduras de madeira, as cadeiras perfeitas, as impecáveis batas, todos os instrumentos, navalhas, pentes, tesouras, pincéis.

Agora é tarde. No prédio pombalino onde a Barbearia Campos foi fundada em 1886,  vai abrir, já todos sabemos, um lugar com um “gostinho especial”. A frase, mais do que patética,  é trágica, e vinda de quem vem só pode sugerir uma precisão: o Chiado vai ter, mais do que um “gostinho especial”, um cheirinho especial: aquele inconfundível Air de Macdonald’s que se entranha na roupa, e pior que isso, se entranha nas veias, entupindo-as de maléficas gorduras.

Outra precisão: estou longe, muito longe, de ser uma fundamentalista anti fast-food, cedo ao Imperialismo e bebo Coca-Cola, já dei várias dentadas em Big Macs e algumas souberam-me mesmo bem. Mas esta notícia – agravada pelo facto de a referida cadeia alegadamente explorar os seus empregados e fugir ao fisco – é uma infelicidade. Não sei o que vai sobrar da Barbearia depois disto. Na verdade, prefiro não imaginar. O progresso é maravilhoso.

Este fim-de-semana, cruzei-me com o Presidente da Câmara de Lisboa, todo equipado, calções colantes, t-shirt cor-de-laranja e capacete, a preparar-se para uma salutar voltinha de bicicleta à beira-rio. Também eu estava a preparar-me para um passeio de bina, e na companhia das crias, não me quis chatear e decidi não dizer nada. Perdi uma boa oportunidade de não ficar calada.

A verdade – e isto não é desculpa- é que se tivesse aberto a boca era um vê-se-te-avias. Nunca mais me calava e não queria perder o pôr-do-sol. O caso da Barbearia Campos, que em breve terá como vizinho de cima Ronald Macdonald e o seu sorriso freaky-fool, é só um dos infelizes exemplos da descaracterização de Lisboa que todos vamos pagar. Pelas razões que mais acima descrevo, este toca-me particularmente. Como me toca particularmente a notícia do encerramento do Jamaica (este fecha mesmo portas e nunca mais ninguém o viu), por outras razões, menos românticas, igualmente válidas, que não me apetece agora partilhar. E podemos continuar por aí fora, com um dramático rol de livrarias, lojas, jardins e espaços de Lisboa que estão ora descaracterizados, ora liminarmente a desaparecer do mapa debaixo dos nosso olhos.

Claro que apetece dizer: são uns vendidos. Estão a vender Lisboa e a destruir a sua identidade por meia dúzia de tostões. Convencidos que temos aqui uma cornucópia infinita,uma galinha dos ovos de ouro, e que Lisboa é cool, e que precisamos mesmo é de mais Tuk Tuks, e hostels, e hotels (com “h” aspirado) e paellas nas ruas da Baixa, e MacDonalds de bairro. Mas é mais grave do que isso. Os ovos, mesmo os de ouro, apodrecem. Mais do que vender Lisboa, estamos a perder Lisboa, por tuta e meia. Qualquer dia abrimos os olhos e já cá não está. Está uma cidade igual às outras, que é precisamente aquilo que Lisboa, como todas as cidades verdadeiramente belas, não é nem pode ser.

Tive a sorte de viver em Barcelona no final dos anos 90, na época imediatamente anterior à sua tristemente famosa decadência. Chamava-lhe nesses dias a “Linda Barcelona”, porque não conseguia então mencionar a cidade sem imediatamente a adjectivar. Alguns anos depois -poucos- regressei a Barcelona e estava irreconhecível. Todo o seu esplendor tinha desvanecido. Atribui essa desilusão ao meu próprio olhar. Não era Barcelona que estava diferente, era eu. Sempre acreditei que as cidades reflectem tanto de nós como nós delas, e isso varia com o tempo, com o momento, com o estado em que estamos, mas a simbiose está sempre lá. Pensei: a culpa não é de Barcelona, é minha, que entretanto perdi o brilho. Claro que, no meio do caos, Santa Maria del Mar continuava de pé. Também nós temos a Sé. Mas não era a mesma coisa. Hoje, parece que graças a políticas acertadas, Barcelona recupera o fôlego e a chama. Parece que os catalães, gente com muitos defeitos mas bastante à frente, abriram a pestana a tempo.

Em Lisboa, é urgente fazer o mesmo. Não podemos continuar de navalhada em navalhada assobiando para o lado e fingindo que nada se passa. Alimentando a ilusão, e contra mim falo, que isto vai ser sempre assim, que Lisboa é Linda e será assim para sempre. Não vai. E a contagem já começou.

(a fotografia é surrupiada da página de Facebook da Barbearia Campos)

 

 

 

 

 

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