Busílis com Corbu

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Temos cá em casa um busílis com Corbu. Quer dizer, uma dificuldade que nada tem de filosófico, porque nos rendemos à evidente beleza, e pertinência destes objectos, mas que é antes de ordem prática.

Não nos entendemos com Corbu. Venerando-o a mãe, as crias não encontram explicação para esta adoração sem limites. Ainda bem que não sabem a história toda, caso contrário perguntar-se-iam: Mas afinal o que terá dado na cabeça deste senhor para desenhar os sofás mais desconfortáveis do mundo e ainda assim ter a lata de lhes chamar Fauteil Grand Confort?

Corbu, amigo, és grande, we love you, mas grand confort uma ova.

Há uns anos (podia acrescentar “atrás”, mas à frente não é de certeza, ainda não estou lá) herdámos um par de sofás LC 3, das edições recentes, bem entendido, produzidas pela Cassina desde 1965. Esta série, celebérrima e copiada até à exaustão, foi desenhada por Le Corbusier, o seu primo Pierre Jeanneret e a menina Perriand em 1928. Tornou-se um ícone do design de mobiliário e já conhecem o resto da história. Impossível não os reconhecer (em versão barata, provavelmente made in china, na sala de espera de um consultório perto de si, em versão cara, na casa de um wannabe, em versão impossível, para afortunados puristas cheios de massa), são um símbolo do moderno “estilo internacional” e uma espécie de Coca-Cola do design: certamente umas das imagens-peças mais reconhecidas do mundo, da Sibéria ao Sudão.

Mas a questão é: e porquê? Sabemos que outro visionário, Steve Jobs, escolheu uma cadeira LC2 para apresentar o iPad ao mundo. Está tudo alinhado. Sabemos também que as versões mais antigas são mais generosas, e mais gorduchinhas que as recentes, talvez pela bonomia do uso, a que chamamos patine, que amolece os corações mais duros e os assentos mais intratáveis. Mas são precisos muitos anos, muitos rabos, muitas costas, muitos ombros cravados e cabeças encostadas para estes sofás oferecerem em conforto o que esbanjam em beleza.

Cá em casa, já experimentámos de tudo. Não só as mais diversas posições corporais (direitinhos, espojados, pernas para o lado, pernas esticadas, pés para o ar, cabeça no braço do sofá) mas também várias combinações possíveis, incluindo um ninho de amor improvisado que se consegue juntando dois LC3 (mas também escorregámos, a modularidade não é o seu forte). Somos Munari, à procura de conforto numa cadeira desconfortável. Somos um boi, a olhar para um palácio, como perante a inefável beleza de Juicy Salif?

Os sofás de Corbu são como as relações impossíveis. Podemos amar até à exaustão, mas o convívio, o “cunbíbio”, esse é que mata. Não podemos viver sem eles, nem conseguimos viver com eles.

(Em cima, LC4, a versão chaise longue, aço tubular e pele, que exprime muito bem o ideal do conforto prometido. Aqui o bicho. Corbu, I love you but you’re bringing me down).

 

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