Açores, agradecida

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Os Açores são a coisa mais linda.

Tão linda, mas tão linda, que me pergunto como fui capaz de viver até agora, em relativo sossego, passando-lhes ao largo.

(Ou quase, já tinha estado na Terceira.)

Os Açores são assim: azul, verde, azul, verde, azul. E depois há os vulcões e as lagoas. As vacas  e os Vhils. Negros vulcânicos e águas cristalinas. Também há hortênsias, aos molhos e pelos montes, couves-flores roxas, azuis, rosa, brancas, tesas e viçosas à beira das estradas. Há árvores quilométricas, vindas de todo o mundo ou que nasceram lá. E água a ferver. Por todo o lado, a brincar às erupções. Furnas e rochas e costas recortadas. Telhados de duas águas, muros de basalto, vinhas a explodir, eléctricas e verdes.

Nos Açores, sentindo-nos vulcânicos, estamos em paz. Isso é bom. De outra forma, facilmente perderíamos a cabeça. Descobri uma prainha que parecia tirada de um filme de Tati. O tempo não tinha parado, não, mas era tudo tão familiar, tão próximo e ordenado, embora ainda selvagem, que podia ter visto Mr. Hulot cirandando pelos rochedos.

A água não é quente, é perfeita. Podem tomar-se banhos termais, no meio das ilhas, ou em pleno mar, com a água a 40º, sempre que se apanhe a maré certa, na Ferraria. As praias, de calhaus e de areia, porque há de tudo, são deslumbrantes. A areia preta é tão brilhante como a de cá, às vezes percorrida por laivos verdes que parecem ter escorregado das falésias.

Podia continuar aqui a louvar os Açores, mas nunca lhes chegaria aos calcanhares. É preciso ir. Não interessa se está na moda, se virou trendy. Já lá estava antes de tudo isso, e continua a estar. É preciso ir. É tão importante que devia ser obrigatório, decretado à nascença, para gozar durante a vida.

São nove ilhas, e isso é maravilhoso. Desta vez foram três (S. Miguel, Faial e Pico) mas ainda há tanto para ver, nestas e nas outras.

Antes de escrever este post, pensei como iria falar sobre os Açores, se os Açores são como o mar, que não cabe em nada, muito menos em palavras. Pensei em publicar só fotografias, mas não chegava. Pensei em fazer uma lista à la Time Out, “Dez Coisas Que Não Podes Perder Nos Açores”, mas pareceu-me inútil, impossível, porque são muitas mais, e enfim, há vida para lá do Instagram (estão obcecados com lugares “instagramáveis”, parece que todo o guia é para ser “instagramável”).

Então resolvi fazer uma lista de “Dez Coisas Para Agradecer Aos Açores”, não íntima, mas pessoal:

  1. As Cracas: a expressão “falar com Deus”ganha uma novo alento depois de provar este crustáceo feioso que brota do mar dos Açores. Feio por fora, belíssimo por dentro, prova que a verdadeira beleza é invisível aos olhos. Cozinham-se em água salgada e não precisam de mais nada. Comi-as, bebi-as, na Ribeira Grande.
  2. A Cumeeira: ao chegar à Vista do Rei, sobre a Lagoa das Sete Cidades, tome-se a estrada menos percorrida, à esquerda. Chama-se Cumeeira, e vai contornando a cratera do vulcão, em dois trechos. Para além do chitex de percorrer o cume num rally em câmara lenta, as vistas são deslumbrantes e inesperadas.
  3. A Tasca do João: um tesourinho escondido junto ao estaleiro de Santo Amaro, no Pico, onde ainda se fazem barcos de raiz. O peixe não vem da lota, vem do pescador. Com jeitinho, consegue-se encomendar marisco do melhor, como as Cavacas ou Cavacos (mini lagosta Açoriana, só que muito melhor, sem aquele tédio adocicado lagosteiro). O Sr. João, que cozinha, confraterniza e serve às suas mesas de chapéu de chef, ensina-nos que se come com os olhos, com a boca, mas também com os ouvidos. As histórias que tem para contar, do Canadá ao Perú, são tão deliciosas como o seu peixe grelhado ou em tempura, regados com vinho do Pico. E tudo a preço de amigo, mesmo.
  4. O Banho na Ferraria: No extremo ocidental de São Miguel, as termas da Ferraria são um dos sítios obrigatórios da ilha. É o único lugar dos Açores onde é possível tomar um banho de mar a 40º. Tudo graças a um lençol de água a ferver que corre por baixo da terra, e desemboca numa piscina natural no meio do Atlântico. O único problema é acertar com a hora: a água doce e quente mistura-se com a água salgada mas tem de estar na proporção certa, o que acontece na maré vazia. Em alternativa, tome-se um banho na piscina das Termas da Ferraria, um lugar bonito e acolhedor com um Spa maravilhoso.
  5. As Lapas da Caloura: o Bar Caloura, em São Miguel, serve petiscos a todas as horas, que sabem ainda melhor depois de um mergulho (gelado) na piscina natural da praia. É turístico, mas recatado. Cheio de charme, como um portinho perdido dos anos 50, as lapas estavam de chorar por mais.
  6. Santa Bárbara e os Mosteiros: Desengane-se quem acha que as praias nos Açores são só calhau. O areal de Santa Bárbara, na costa norte de São Miguel, e a praia dos Mosteiros, num dos extremos da ilha, são magníficos destruidores do mito. Mas há muitos mais. As praias são lindas, o mar uma delícia, e há areia que se farta. Rochas também, como aqueles monumentos nos Mosteiros (estão aí em baixo, parecem uma casinha no meio do mar), para amar. Em Santa Bárbara, vale a pena espreitar o Eco-Beach Resort, e dizem que também provar o sushi, que não é bem bem açoriano mas faz todo o sentido ali.
  7. As Vinhas do Pico: São Património da UNESCO e de todos nós. Na zona da Madalena, mas não só, é vê-las por todo o lado, galgando muros de basalto em direcção ao mar. Se a estas juntarmos as casinhas de pedra vulcânica com portadas coloridas (não são vermelhas, são zarcão; não são laranja, são damasco) é difícil não querer voltar. No Lajido, São Roque do Pico, vale a pena visitar o Centro de Interpretação da Paisagem da Cultura da Vinha para perceber melhor a história desta região vinhateira e não só.
  8. O Ácer Japonês: É uma estrangeirice, mas é das minhas árvores preferidas e tinha que escolher alguma. Este é apenas um dos exemplares botânicos que podem ver-se no parque Terra Nostra, bem perto da Lagoa das Furnas, em São Miguel. Foi eleito um dos jardins mais belos do mundo e não é por acaso. Mesmo com um bafo insuportável, valem a pena os banhos nos jacuzzi e na piscina com água “fresquinha”, acabadinha de sair do vulcão. Já agora, na Lagoa das Furnas, continue-se a exegese e visite-se o Centro Interpretativo da Lagoa das Furnas, dos Aires Mateus, tão bonito ao vivo quanto nas fotografias do Fernando Guerra.
  9. Os segredos de Santo Amaro: Com a ilha de São Jorge mesmo em frente, sempre a espreitar por entre as nuvens, pouco oferecida, esta é uma das zonas mais bonitas da Ilha do Pico. E demos a volta à ilha. Uma das poucas (será a única?) praias de areia da ilha fica aqui. É um miminho, e o nome rima: prainha. Um pouco mais acima, o portinho, onde, apesar dos ouriços, se tomam banhos de mar épicos. Na Terra Alta, é comer a vista com os olhos, segurar o queixo e respirar fundo.
  10. O bolo de chocolate do Peter’s: Toda a gente fala do Gin Tónico – e foram dois – mas o bolo de chocolate do Peter’s merece tanto ou mais destaque. Fomos comendo dentadinhas, das bordas ao centro, até que ficou uma ilha no prato, coberta por lava de chocolate. O Peter’s é uma instituição da Horta, do Faial, dos Açores, de Portugal e do Mundo, e merece o estatuto porque é mesmo um lugar especial. Claro que hoje já não é só um bar de marinheiros, é um quarteirão inteiro. O Peter’s é Dono Daquilo Tudo, mas a malta agradece que esteja ali. Do outro lado, no Pico, o Cella Bar também pôs os Açores na boca do mundo. Chamam-lhe o amendoim e percebe-se porquê. É uma loucura, um wine bar que faz as honras à terra onde nasceu, e o spot ideal para, sentados no Pico, ver o Faial e São Jorge ao mesmo tempo, absorvendo, mais que a sensação de ilha, o esplendoroso travo do arquipélago.

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