Pombaria

Todos os dias atravessamos o jardim pela fresca. Às vezes, vamos de mãos dadas. Outras vezes, completamente soltos, cada um para seu lado, e fazemos corridinhas matinais.

Vamos até ao portão, apressadíssimos, na verdade rimos mais do que corremos, e por isso é tão bom. Depois do portão, a estrada. Depois da estrada, a escola. Beijo, beijo, tem um dia bom.

Quando não corremos, temos mais tempo para olhar o mundo, que é mais visível de manhã. Olhamos para as copas das árvores. Os jactos de água cortando os caminhos.

Inventamos um jogo:

– Mãe, o primeiro a ver um pássaro ganha.

– OK.

Abrimos os olhos. Pescoços estirados. Narizes no ar.

– Mãe, os pombos valem?

Procuro um bico amarelo entre as ramagens. Não há Melro à vista. Respondo sem tirar os olhos do ar,

–  Hmmm. Acho que não. Os pombos não são ratos voadores?

(ou isso)

S. fica pensativo. Ri para si,

– Ya. Os pombos são pássaros mitras.

– Ya. Também têm direito à vida, mas é mais ou menos isso.