A Uber Continua

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Juro que pensei bastante antes de escrever este post. Para tristeza, já bastava o espectáculo a que assistimos na segunda-feira. Cá em casa, coisa rara, sentámo-nos todos à frente da televisão para ver o circo. Tive mixed feelings. Ao mesmo tempo que sentia ser péssimo estar a expor as crias aquela violenta palhaçada, dizia-me a mim própria que aquela violenta palhaçada era do mais palhaço que existe e por isso mesmo, nem que fosse a título de exemplo, merecia ser vista.

Depois deixei a coisa repousar. Embora seja um bocadinho inevitável fazê-lo, em princípio não gosto de encher a cabeça dos brotos com os meus preconceitos. Até porque, neste particular, o “mal” já está feito. Estou certa de que os meus filhos sabem muito bem quais são os meus sentimentos em relação à generalidade dos taxistas. Não é preciso muito. Basta darem uma volta de carro comigo ao volante, para perceberem. Com a sua falta de civismo e ordinarice congénita, os taxistas conseguem a proeza de soltar o taxista que há em mim. E por isso os meus filhos têm anticorpos suficientes.

Mesmo estando eles vacinados contra “fugas”, mesmo abstendo-me eu de fazer mais comentários que pudessem agravar a repulsa (é deixá-los pensar pelas próprias cabecinhas) era notória a excitação/inquietação que os tomava. “Mãe, achas que vai ser o apocalipse?” pergunta-me S.

G., mais interessado na dinâmica do movimento, quer saber que raio é que a Uber fez para ter de levar com aquilo. Boa pergunta, meu rapaz. Eu tento explicar. Daí a pouco desisto de explicar porque realmente a Uber não fez nada a não ser existir. Na verdade, bem vistas as coisas, os drivers da Uber e os motoristas de táxi até estão do mesmo lado. Ou deviam estar.  É a precarização, estúpido.

Os meus filhos estão habituados a ver uma manif como uma coisa cool. Chamem-lhe esquerda caviar ou o que quiserem, mas é assim. Uma manif é um momento. Onde é preciso ir, quando é preciso. Porque nos toca, ou porque não nos tocando, toca a todos, e por isso acaba por nos tocar. Uma manif é uma coisa tão digna, tão bonita e importante, que já me aconteceu estar em frente ao espelho a pôr baton antes de sair de casa e ouvir assim: “Mãe, vais a uma manif?”. Como quem vai a um lançamento (que era ao que ia).

Depois das tristes figuras dos taxistas, a começar pelo inenarrável patrão da Antral, depois de tanto tiro no pé, fica mais difícil. Estavam baralhados, os meus rapazes. No meio de tanta palhaçada, torna-se complicado manter a seriedade e criar estes meninos como manda a lei (ou a desobediência civil).

Experimentei então fazer um comentário kármico: “Meninos, do que estes senhores precisam é de amor”. Juro que pensei nisto, que se calhar o remédio para tanto espumar de boca e tanto insulto e tanto peito dado às balas era sermos imensamente, colectivamente

C O M P A S S I V O S

para com os energúmenos. Uma espécie de amor com amor se paga mas sem ironia.

(Podia ser que assim eles deixassem de querer acabar com a Uber e passassem a querer ser como a Uber. Podia ser que assim dissessem, como os outros, “nem connosco, nem com ninguém”)

Durou pouco, a minha esperança. No dia seguinte, decidida a mandar boas vibes para cima de qualquer taxista que comigo se cruzasse, meti-me na boca do lobo. Ia atrasada, não dava mesmo para ir a pé, e, na ressaca dos protestos, apetecia-me mais que nunca dar-lhes o benefício da dúvida. Entrei no clássico cubículo preto e verde nauseabundo, e fui conduzida, durante uns minutos que me pareceram uma eternidade, por um perfeito lunático. Poupo os detalhes. Foi por acaso. Podia ter sido um taxista educado, mas não calhou. Senti-me tão mal, tão arrependida de me ter sentado naquele banco desfeito com molas avariadas, que tive de sair antes de chegar ao meu destino. Fugir daquela cápsula de neurose acabada. Encoste aí por favor. Quanto lhe devo. Quero ar puro e Sol e Uber. Muita Uber em silêncio civilizado, só com a temperatura exterior na ponta da língua se faz favor.

Tratei dos meus assuntos e vim para casa de Metro.

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