Todos ao Doc

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Ainda estou às voltas com 95 and 6 to Go, de Kimi Takesue, um dos filmes em competição na 16ª edição do DocLisboa. A realizadora acompanhou o avô, um imigrante japonês nonagenário no Hawai, ao longo de seis anos. O avô tem 95 anos. Faz flexões, alongamentos da coluna, colecciona “coupons”, e come, come bastante. Pelo meio, diz coisas tão bonitas e tão certas como “You should get a job” (a neta já tem um: faz filmes. Na discussão após o filme explica que seguiu o conselho do avô e agora também dá aulas de cinema. Steady steady).  É uma “meditação íntima” sobre o tempo e a memória, e a maneira como a memória, feita de camadas, é sempre uma narrativa. Assim, a realidade – a que vivemos e a que projectamos-  é também sempre ficção. E é sempre criativa, porque construída.

O avô é um personagem adorável. Um encanto. Cheio de defeitos, como os maiores encantos. Talvez tenha sido um processo de identificação. A minha avó tem 95 anos. O meu avô dançava como o Gene Kelly. Este também ensaia os seus passos de dança.  Na sala, descalço. De calções e suspensórios. O mais bonito deste filme é mostrar que o humor, a sensibilidade e a criatividade, se escondem por vezes nos lugares mais inesperados. Como as coisas quase nunca são o que parecem. As pessoas também não. São sempre muito mais do que parecem, e muitas vezes para melhor, felizmente. Este avô lembrou-me uma personagem de Woody Allen, só que real. Já existe, não precisa de ser inventado. Através dele, o humor e a criatividade irrompem, sem avisar, no quotidiano.

Diz quem sabe que o DocLisboa tem  conquistado um enorme reconhecimento internacional, e que a quantidade de bons filmes que vêm estrear a Lisboa é um sinal muito claro disso. Por uma vez, não estamos na margem, estamos no centro, e o mundo inteiro cabe aqui. Por uma vez, o centro é bom.

É impossível ver todos os 260 filmes que passam estes dias por Lisboa. Ainda assim, tenta-se abrir os olhos e sorver a vida. Perdemos o novo filme de Claúdia Varejão mas foi por uma boa causa: a lotação estava esgotada, a sala cheia de meninos e meninas nas sessões para escolas. O filme deu livro e o poster é lindo, já agora. Vimos outros filmes em competição (A Road, é uma belíssima primeira obra do japonês Daichi Sugimoto foi um deles) , passámos pela Cuba revolucionária com Chris Marker, e ainda há muito mais para ver.

O DocLisboa continua até dia 30. É ir, é ir, e deixar para trás o lamento de que em Lisboa não se passa nada. Porque passa. E muito. Basta abrir os olhos e ver, que para isso se fez o cinema.

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