Lãbuzar

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Aquela frase “I’m not a cat person”, eu achava que tinha sido feita para mim. Passei quase quatro décadas da minha vida convencida de que não gostava de gatos. Depois apareceu-me um  gato. Depois comecei a baixar a guarda, sorrateira, sempre alerta. Como um gato. Quando dei por mim, estava a achar-lhes graça.

Admirava-lhes a agilidade, a flexibilidade felina. Talvez por me parecerem elásticos, sempre despertos, vivaços. Depois fixei-me nos focinhos, nas patas aveludadas, nas almofadinhas, nos pelos, nos saltos, nos olhos, nos bigodes e nas caudas. Deixei de lhes imputar indiferença, desprendimento. Passei a achá-los só independentes, mestres do desapego. De repente, havia muito mais espaço para os gatos no meu coração. Não só os gatos pequenos, que sempre me fascinaram como a generalidade das miniaturas, mas todos. Amarelos, cinzentos, listados, vadios, pretos, malhados, gordos, elegantes e mais ou menos grandes. Gatos.

Mesmo sendo óbvio que nunca privei com um gato e que por conseguinte não percebo nada de gatos, vou-me rendendo à evidência. Sem os conhecer bem, tenho-lhes um imenso respeito. São um mistério para mim (para todos, mas para mim mais, que não percebo nada de gatos) mas acho  que os gatos têm muito para nos ensinar. Gatos gurus.

Dito isto, não nos exaltemos. Não vou adoptar nenhum Tareco. Antes disso, teria de passar um cão por aquela porta. Mas é um passo.

Uma patinha.

Tudo isto vem a propósito do genial, adorável, plus que parfait, Ronrom, um abrigo para gatos criado pela francesa enraizada em Portugal Diane Gazeau, que para além de ser fotógrafa – e que fotossensibilidade-  ainda tem tempo para projectos lindos como este. E mais importante: para ser mãe de três.

Tentámos marcar um encontro no Jardim (Diane vive no campo e vinha a Lisboa para o mercado Crafts & Design) mas a chuva estragou-nos os planos. A entrevista a sério fica para depois, agora deixo-vos mesmo com o projecto Ronrom explicado pela autora. Aninhem-se e desfrutem. Lãbuzem-se. Isto é Cat Power e o resto é ronronar.
Onde é que nasceu?
Em Paris.

Há quanto tempo está em Portugal?
Vim para Portugal em 1984.

– O que a fez ficar por cá e o que gosta mais daqui?
Indubitavelmente gosto muito de cá estar. É um país rico nas suas tradições, nos seus costumes, com uma paisagem muito diversificada, uma alimentação que muda de região para região. As pessoas que encontrei ao longo da minha vida ajudaram-me sempre com um sorriso. Os portugueses são acolhedores. Mas confesso, o que mais me atraiu foram os contrastes, em todos os seus sentidos e uma imensa luz. Portugal tem esse privilégio.

Blogger, fotógrafa, artesã…. Qual é a camisola que mais gosta de vestir ou que melhor a define?
A fotografia. É através da objectiva que exprimo o que sinto. Sou muito sensível ao que me rodeia. O blogue é um veículo.

– Se calhar ser mãe é mesmo o fundamental? Como se concilia maternidade e criatividade/criação (há tempo para tudo, desculpe a pergunta mas interessa-me muito)?
Antes de ser mãe, trabalhava em Lisboa. A minha vida profissional não encaixava na maternidade. Saímos de Lisboa para abraçar novos projectos: restaurar uma casa de família na Beira-Alta e dedicar-me à educação das minhas 3 filhas. Ao longo destes 18 anos foi esta a minha prioridade. Toda a criatividade veio sempre em segundo plano. E continua a ser assim. A educação para mim é fundamental. A escola não educa, ela forma. E sempre achei muito importante dar o que a escola não dá. O blogue nasceu justamente dessa vontade de mostrar a história duma mãe com as suas filhas e toda a criatividade que nasce em cada dia. Não manter as filhas presas em frente da televisão ou computador, mas sim desenvolver projectos pensando em cada uma delas. Sou uma mãe presente, apesar das longas distâncias que nos separam hoje. O meu atelier não tem horário, porque não sei o que me reserva o dia de amanhã.

– Como surge o seu interesse pela lã?
Durante 10 anos, ouvi os chocalhos do rebanho a contornar a minha casa na Beira-Alta. Ainda hoje, de cada vez que lá vou, sinto a necessidade de caminhar e de ir ao encontro do pastor, o meu amigo Toino. Com ele aprendi muito sobre a raça bordaleira, sobre os seus costumes, sobre o queijo, sobre a transumância. Foi pela sua mão que pude seguir o Maioral numa ida a Serra da Estrela. Levei a minha amiga Rosa Pomar porque partilhávamos esse mesmo prazer.
Adoro procurá-lo no Verão quando ele dorme com o rebanho. Enquanto ouço as suas histórias, enfio os dedos da minha mão na lã da ovelha, ficam besuntados de lanolina. São pequenos prazeres que nunca esqueço e que marcaram o meu percurso. Quando ele tosquiava, lá ia eu fotografar e levava sempre um velo ou dois para casa.
Mas foi no Baixo Alentejo que assumi o percurso da lã com as tecedeiras de Mértola, sem esquecer a D. Vitorina, a fiandeira. Adquiri uma roda de fiar centenária e aprendi a arte de manusear a lã.

– Conte-nos a história de Ronrom?
“Ronrom” é o meu primeiro projecto com a lã. Fui acumulando ao longo dos anos muitos velos. Nem todos se adaptam à roda de fiar, típica desta zona do Alentejo, como, por exemplo, os de lã bordaleira.
Acho que o facto de passar muitas horas no atelier, na companhia dum gato, me ajudou a encontrar respostas. Se nem toda a lã é para fiar, pode ser feltrada apesar de haver mais soluções. O gato adora a lã e em contacto com ela, ronrona.

– E das etiquetas desenhadas pela Joana Rosa Bragança. Como conheceu a ilustradora e o que a cativou no trabalho dela?
Conheço a Joana Rosa Bragança há muitos anos e penso que foi através do Flickr. Não vivemos muito longe uma da outra, se bem que as distâncias sejam relativas. Aprecio particularmente a sua sensibilidade, quer através das suas fotografias, quer das suas “Soft Sculptures” ou das ilustrações. Quem melhor do que a Rosa ( é assim que lhe chamo) para me desenhar um gato? Ela vive rodeada de gatos.

– Pode explicar rapidamente as várias etapas do trabalho da lã a que se dedica nestes abrigos para gatos?
A lã é lavada, carmeada, cardada e feltrada pelas minhas mãos.

– Onde vão estar à venda?
De 17 até 23 de Dezembro na Retrosaria da Rosa Pomar, na rua do Loreto, nº 61, 2º andar em Lisboa e depois no meu site.

(as fotos, aí em cima e aqui em baixo são todas da Diane Gazeau, que as cedeu gentilmente ao Playtime para este post)

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Xuxudidi01.jpgAcho que o facto de passar muitas horas no atelier, na companhia dum gato, me ajudou a encontrar respostas.

 

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