O bom design é UTIL

icon-06

UTIL_Oyster_03.jpg

Oyster

Atrás do filodendro há um mini bar sobre rodas que desliza, elegante, para o sítio onde realmente faz falta. Pelo caminho, passa mesmo à frente de um banco excêntrico, mas sobretudo espertíssimo, que se apoia contra a parede revelando a sua mais inesperada face.

Oyster – o banco de freixo maciço  – e Basso – o mini bar que desliza – são apenas dois dos fascinantes objectos que compõem a colecção inaugural da UTIL, uma nova marca de mobiliário e acessórios para a casa produzidos em Portugal e desenhados pela Europa fora por um grupo de jovens designers emergentes e extremamente talentosos.

Antes de se apresentar ao mundo em Paris, durante a Maison & Objet, a UTIL estreou-se em casa, em Lisboa, n’O Apartamento – o espaço ideal para criar a atmosfera convivial que a colecção convoca. Chamam-lhe “objectos sociais” e são isso mesmo. Objectos desenhados para se estar. Para pensar também. Úteis, porque “nos alarga(m) o intelecto”.

O projecto, liderado pelo designer português Manuel Amaral Netto, constrói uma narrativa quotidiana, primorosamente desenhada e executada, que nos acompanha desde a chegada a casa, quando pousamos as chaves no bengaleiro colocado à altura certa, até ao momento em que puxamos um banco extra para alguém que apareceu de repente, e pousamos o copo numa mesinha ocasional de proporções perfeitas.

Para a UTIL este é apenas o começo. Ainda bem. Ficamos muito felizes, e agradecidos, que venham preencher o nosso espaço e embelezar o nosso tempo desta forma. Com design tão sério quanto inteligente e divertido. Com tanta distracção que para aí anda, estávamos mesmo a precisar. De coisas úteis e belas, ao mesmo tempo e no tempo exacto. Sem pressas, sem demoras, com a justa espera. Acertadas.

(Aqui em baixo fica uma entrevista feita ao Manuel Amaral Netto, da UTIL, quando estavam em Paris. As fotos são do Nuno Sousa Dias. O site está silencioso mas não o percam de vista, aqui).

Este projecto, UTIL, já se preparava há algum tempo. Roma não se fez num só dia?

Começou há quase dois anos, nessa altura falava muito com amigos e outras pessoas que me iam aconselhando para perceber o meu target. Acho que tudo começou por aí. A tentar perceber se havia outras pessoas com o mesmo mindset que o meu para os objectos do dia a dia e qual a importância que lhes atribuíam. Todo o conceito da marca demorou alguns meses a delinear e aos poucos as tipologias a desenvolver foram surgindo. Nesta altura trabalhei muito com um amigo meu que vem de Psicologia e Marketing e foi bom bater bolas com ele. Com ele, consegui fazer a ponte para uma narrativa do dia a dia que se foi amadurecendo conforme o projecto ia avançando.

UTIL_Basso_04.jpg

Basso

Tenho ideia que fizeste muito trabalho de campo em Portugal para investigar materiais, técnicas, ofícios. É assim, como foi,  e como é que isso se reflecte nestes objectos? 

Paralelamente à parte conceptual, ou uma tentativa de encontrar uma narrativa que explicasse a marca, comecei a visitar uma série de potenciais parceiros na indústria. Sabia que gostaria de trabalhar com tecnologias que não necessitassem de grandes investimentos em ferramentas como moldes, mas queria que houvesse variedade, que também demonstrasse de alguma forma o potencial de produção que ainda temos em Portugal. Comecei com umas fundições no centro do país, visitei algumas fábricas de vidro e outras de cerâmica. Encontrei uma serralharia super bem equipada na zona de Sintra que a meio caminho investiu em novas quinadeiras que possibilitaram fazer o bengaleiro Hal de uma forma bastante simples. Enfim, foi um processo longo e por vezes acidentado.

Outro exemplo foi o Dual, os copos e a garrafa. Foi o único em que houve realmente um investimento mais relevante para os moldes, por causa da sua forma assimétrica. Ou seja, para se conseguir essa forma não se pode girar a cana como normalmente se faz com formas de revolução e em moldes de madeira que são mais económicos. Como o vidro não roda a temperatura aumenta e os moldes de madeira só dariam para tirar uma peça. A única solução era investir em moldes de aço que já possibilitam tirar a forma desejada mais eficientemente. Esse também foi um aspecto que queríamos deixar assente, que queremos ser sérios naquilo que fazemos e para isso queremos investir para o fazer bem.

UTIL_kite_2_22.jpg

Kite

Vocês são um grupo de “emerging designers” de diferentes origens. Encontraram-se todos na ECAL? O que vos une e o que vos separa?

“Emerging designers” foi talvez o melhor termo para explicar que não é mais dos mesmos. Trabalhar com designers que não são conhecidos, ainda, na praça, era também um valor que queríamos para a marca. Ou seja, não queríamos apoiar-nos no sucesso que vem atrelado a algum nome sonante mas antes explorar realmente a rede de pessoas que fui conhecendo ao longo do meu trabalho. No meio disto tudo já vivi na Holanda, Itália e mais recentemente na Suíça, quando frequentei a ECAL, e realmente a ECAL teve muito a dizer a esse respeito. Curiosamente o Joschua foi o único que conheci na ECAL. Ele e outros dois designers, o Tobi e o Cesare, com quem formei o From Industrial Design, e que também estão a desenvolver um produto que infelizmente não consegui desenvolver a tempo para apresentar nesta primeira leva. Mas está na forja para que tudo corra bem num futuro próximo. Os outros designers, apesar de não terem nada a ver com a ECAL, também acabei por conhecê-los um pouco devido à escola. O Gerhardt Kellermann trabalhou há uns anos com o Tobi para o Nitzan Cohen em Munique. A Ana Relvão, a outra metade da Relvão Kellermann, trabalhou para um antigo professor meu, mas nunca a tinha conhecido até à UTIL. Eu gosto bastante da abordagem pragmática e virada para o mercado que eles têm e ainda foi super interessante discutir o projecto com eles uma vez que eles eram sempre capazes de levar a ideia um pouco mais à frente. O David Geckeler e o Frank Michels conheci-os durante o Salone Satellite em Milão de 2014. Foi completamente por acaso mas demo-nos logo bem. Talvez por termos um sentido de humor parecido ou por me identificar bastante com o seu trabalho, pensei logo neles para lhes falar da UTIL. Depois de lhes explicar a ideia, eles propuseram o Oyster. Estes designers antes de serem bons profissionais são pessoas com quem eu me identifico e consigo falar. Julgo que esse é também um factor bastante importante apesar de não o parecer de início. E uma coisa interessante de todos eles é que durante todo o caminho ajudaram-me a empurrar para que isto acontecesse. Com ideias novas, com perguntas, a mostrar interesse. Se a UTIL consegue estar em Paris hoje é muito por culpa deles também.

UTIL_kite_2_03.jpg

A ideia de “parar o tempo” com objectos que convidam à sociabilidade é um bocadinho “contra” nestes tempos acelerados de gratificação instantânea, em que já ninguém sabe parar e esperar. Sentiam falta de objectos assim?

Julgo que aquilo que propomos não vai mudar o mundo amanhã certamente, e conseguimos viver de alguma forma com aquilo que encontramos no mercado, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, há sempre espaço para se fazerem coisas bem feitas de forma séria. No meu trabalho gosto de contextualizar aquilo que faço. Pensar quem vai usar, como, porquê, para quê. Gosto de imaginar um cenário e ilustrá-lo. Como aquilo que eu faço são coisas, objectos, acabo por construir esse cenário com objectos que fluem numa narrativa. No entanto são objectos super pragmáticos que a nosso ver faz sentido existirem no nosso espaço. A questão do tempo é um problema constante dos dias de hoje. É como dizem, temos sempre tempo para fazer aquilo que queremos, mas nunca temos tempo para parar e olhar à nossa volta. Devíamos parar mais, sem dúvida, e se for para conversar com alguém que está no nosso espaço é tão bom. 

UTIL_HAL_02.jpg

Hal

Como é que o bom design é útil?

O bom design nem sempre é útil. Há muito bom trabalho desenvolvido por outras áreas do design que não é útil… isto numa primeira leitura, claro está. O bom design tem antes que mais que fazer sentido para o fim ao qual se destina. Por vezes, esse fim é simplesmente o de nos fazer questionar a nossa cultura material e a forma como consumimos e o que consumimos nos nossos dias. É útil na medida em que nos alarga o intelecto. E isso eu acho valioso. Por vezes não importa tanto aquilo que o designer possa acrescentar em termos formais. É sobretudo importante que ele nos torne um pouco mais felizes, ou um pouco mais espertos, ou um pouco mais críticos. Há tanto bom design por aí… mas há muita coisa má.

Onde são produzidos os objectos? Onde os vamos poder comprar? E os preços?

Todos os produtos são produzidos em Portugal. Desde o Porto a Palmela. Espero ir à procura de mais locais que possam fazer sentido. São sempre boas viagens. Neste momento estou em Paris à procura de lojas que sejam interessantes para a marca. Estou bastante ansioso para o que aí vem nos próximos dias! E os preços variam entre os 60 e os 330 euros sensivelmente, para a fruteira Spout em faiança até ao mini bar Basso.

UTIL_Dual_2_01.jpg

Dual

UTIL.jpg

Anúncios

Respond to O bom design é UTIL

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s