Mulheres do Mar (Ama-San)

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(Os senhores da Terra Treme deviam estar furiosos comigo. Com razão. Até a mais dócil das paciências tem limites. A deles, apesar do nome, não parece ser muito dada a erupções. Passaram dias, semanas, meses, desde que encomendei o poster. E dias, semanas e meses passaram sem que fosse buscá-lo. Uma serigrafia linda, com design ilhas studio e impressão lavandaria. Finalmente fui. É a 46/50 e está a meio do corredor, a espreitar-me quando meto a chave à porta. Estou em casa.)

A questão é: pode julgar-se um livro pela capa? Sim. Se a capa for um chamamento, mais que um chamariz. Pode ver-se um filme no cartaz que o anuncia? Também. Ou isso se espera, sempre que ambos sejam tão bons quanto este par.

Só há três tipos de homem no filme de Cláudia Varejão sobre as mulheres mergulhadoras do Japão, Ama-San (que significa “mulheres do mar”):

– Os iludidos (como o patrão da embarcação que leva as mergulhadoras, único que ousa, e é só uma tentativa, deitar um olhar objectificante sobre as Ama)

– Os invisíveis (como o marido de Matsumi, que não abre a boca em todo o filme, e assim se transforma numa espécie de caricatura ou negativo da mulher-objecto)

– Os imberbes (em geral todas as crianças do sexo masculino e em particular o sorridente e amoroso Riku, que está alegremente apaixonado pela mãe).

A razão pela qual a maioria dos críticos portugueses passou ao lado desta evidência e, dando toda a atenção ao filme premiado no Doc Lisboa, não clamou “Matsumi, c’est moi” só pode ser uma. É porque são homens identificados com o estereótipo do seu género.

É nestas alturas que me pergunto porque não haverá, nos jornais de referência em Portugal (e lá fora, imagino) uma única mulher a fazer crítica de cinema.

Quem se debruçar um bocadinho sobre as “questões de género” rapidamente percebe como a paisagem de identidades é diversa e cambiante. Sexo não é género e género não é biologia, ou psicologia, ou sociologia, mas qualquer coisa no cruzamento disso tudo e talvez até fora disso tudo.

Por isso é tão importante olhar para este filme carburando um bocadinho menos de testosterona, independentemente do sexo com que nascemos ou do género com o qual nos identificamos.

Se admitirmos que no documentário a realizadora se perde pelo homem pequenino (o único que parece não ter “mordido a maçã”) e formos atrás, levados pela corrente do filme, percebemos como Ama-San é mesmo um filme feminino. Um filme de gajas.

Não porque as suas protagonistas sejam mulheres. Não porque se dirija a um público feminino, longe disso.

Mas porque é uterino. Uma ode às mulheres, no frágil equilíbrio entre doçura e desígnio, reverência e incompreensão.

Elas governam e governam-se. Elas são providers. São as que nutrem. No Japão e aqui e ali. E antes e agora. Elas mergulham no silêncio líquido como nós. Nas mãos do mar, elas são donas do seu destino, como nós. Elas conciliam a vida, na esfera doméstica e fora de casa, com graciosidade e destreza. Elas cozinham e mimam, tomam banho e dão banho, estendem a roupa, contam histórias, colhem e criam e passam a toalha em corpos franzinos de homens futuros.

Elas amam.

Elas descansam, abandonadas ao aconchego do fogo, como nós.

As Ama: mergulham, reviram, pescam, voltam à tona. Esta é a metáfora mais clara da identidade feminina como a queremos. Ser mulher é mergulhar e voltar à tona. Afundar-se e ver a luz.

Este é o filme, de uma ponta à outra. Depois há momentos ainda mais nitidamente luminosos, mesmo aqueles filmados nas águas mais turvas. O ritual do pano sagrado, escafandro branco de tecido, é belíssimo (e por isso se fixa no cartaz?). Como belíssimos são os tatami shots e todos os planos próximos e a estranheza subaquática, e as ameixoeiras e os pirilampos.

Este é um filme sobre as mulheres. Sobre uma comunidade e um mundo. Sobre o quotidiano universal. Sobre o amor entre mães e filhos, sobre a relação entre arte e vida. Este é um filme sobre a liberdade, a conciliação, e a nossa necessidade de comunhão e imersão na natureza. A nossa e a circundante. Por isso é tão importante. Este é um filme que quero que os meus filhos vejam.

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