Nowhere é aqui

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Estivemos lá e o pianista estava a almoçar. Sentado à frente de uma janela, a olhar para o lago, mastigava devagarinho com cara de poker. Já o tínhamos visto de fora, enquanto dávamos a volta à casa de cortiça que Ricardo Jacinto criou como “residência temporária” para o pianista Marino Formenti. 

(Eu e S. a pensar no lobo mau, nas casas de palha, de madeira, de tijolo, e de como encaixaríamos aqui uma casa de cortiça)

Foram precisos 300 blocos de aglomerado de cortiça expandida, cedidos pela Corticeira Amorim, para construir a casa. Ricardo Jacinto, habituado a explorar as relações entre o som e o espaço, explicou que escolheu este material pelas suas “propriedades acústicas e térmicas”. Mas não é só por isso que a cortiça faz tanto sentido aqui.  Ali plantada debaixo da pala do anfiteatro, há uma casa que, mesmo não querendo ser lugar nenhum, está ali e apela. É a leveza transformada em solidez.

Durante 20 dias consecutivos, Marino Formenti habita esta casa temporária, instalada nos jardins da Gulbenkian, e faz a sua vida. Senta-se ao piano, toca, faz anotações, come, dorme, olha pela janela.  As portas estão abertas para quem quiser entrar e no chão há colchões para as pessoas se sentarem, ouvirem, fecharem os olhos, ficarem. Os colchões estão forrados com capulanas, e num dos cantos da sala há um casal que adormeceu e se deixou ficar (não há música, o pianista está a almoçar).

Vista daqui, a performance de Marino Formenti parece uma experiência de fly on the wall invertida. Ou seja, o público está ali para “conviver” com o pianista,  para ouvir a sua música, como uma invisível mosca na parede. Mas na verdade, a mosca é mesmo o pianista, que pretende, com esta performance (que vem realizando há vários anos, em vários pontos do planeta) “desaparecer” através da música. Nestes tempos sem tempo para nada, atribulados tempos das pressas e dos desatinos, é bem fácil entender esse desejo de dissolução.

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(Diariamente, entre as 10h e as 20h, e só até dia 29 de abril no anfiteatro da Gulbenkian, o público é convidado a entrar e sair livremente, a voltar, a ouvir música ao vivo, num reportório que abarca John Cage, Morton Feldman, Erik Satie, Brian Eno, Jean-Henri d’Anglebert, Gaspard le Roux ou Bjork, entre o barroco e o contemporâneo, numa performance/concerto no âmbito da BoCA – Biennial of Contemporary Arts. Streaming aqui. No dia 30, para quebrar o silêncio, há uma conversa com Ricardo Jacinto e Marino Formenti na Gulbenkian, em hora a anunciar.  As fotos são do Bruno Simão/BoCA Bienal)

 

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